A negra noite da alma


A negra noite da alma

A dor da madrugada,
O desatino duro e distante dos quartos anônimos,
O mergulho na embriaguez disforme
Da escuridão silente e indiferente aos gritos

Desesperados dos que se perderam
De si nas brenhas diurnas da rotina
E penetraram na profundidade
Apavorantemente branca

De uma vigília eterna cumpridora dos deveres
E vem buscar refúgio nos porres tristonhos
De velhos butecos de luz amarela.

Uma rota bandeira que já não balança
Nem nas tardes mornas de um céu de domingo.
Um café sem açúcar, esquentado de novo.
O riso obrigatório da euforia falsa.
As novidades velhas das redes sociais.

O sem sentido tão grande
Que nem dói, mas só arrasta
Nossas mentes insones num mar branco e sem ondas.

Não grite ao portão de granito quando vierem
Te visitar todas estas “entidades”.
Pois não há rogo que as afaste e só após varrerem
Todo sossego modorrento e informe
Te abandonarão ao calor de um novo dia.

Gravataí, 17 e 20 de julho de 2016

Ubirajara Passos

O sono nosso de cada dia


No próximo dia 11 de abril este blog completa exatos dez anos de existência. Pra variar, me parece que foi ontem ainda que postei o primeiro texto (o meu breviário poético anarquista) e este tempo passou como se fosse apenas alguns meses. 

Nos primeiros tempos escrevia freneticamente, porém, desde o início dos anos 2010, este pobre site tem sido cada vez mais relegado  à eventualidade e, ultimamente, quando alguma inspiração desperta, tem sido mais fácil digitar rapidamente algumas frases ao teclado do smartphone (nome fresco para os nossos celulares mais modernos).

Assim, como o leitor atento perceberá, esta crônica nasceu no facebook, hoje, sábado de amanhã, enquanto eu curtia com a Isadora a modorra de estar desperto mas não ter a menor vontade de sair da cama. Mas tão caro me é o tema que rompi o meu jejum bloguístico e aí está o texto, escrito como comentário ao link que divulgava mais uma destas pesquisas americanas, sob o título “Acordar cedo é equivalente a ser torturado, diz estudo

Sempre desconfiei imensamente do discurso de “saúde” e boa disposição dos madrugadores, normalmente pendurado aos lábios dos piores exemplares da falsa moral edificante que ou não tem a menor experiência prática com sua pregação (o que se dá, em geral, com ilustres burgueses – ou os lacaios de luxo destes que atendem pela designação de “executivos” metidos a doutrinadores) ou padecem justamente de uma secura própria das vítimas da peste emocional, substituindo, em suas vidas, o prazer genuíno (que é a própria expressão concreta do bem-estar e da saúde) pela compulsão sado-masoquista do trabalho penoso e embrutecedor, de cujo compromisso compulsivo não podem se afastar um único instante para não cair na “pecaminosa” e desestruturadora “gandaia” tão temida.

Creio firmemente que a obrigatoriedade de acordar cedo é, como tudo que é compulsório no mundo, infelicitante, anti-natural e escravizante e serve à redução da maioria da humanidade ao triste e frustrante papel de gado ou máquina a serviço de uns poucos amos cuja vigarice  e vadiagem é protegida em lei e agraciada com os louros da virtude institucional.

Mas não me parece que o início do ciclo biológico humano diário às 10 h da manhã, apontado na pesquisa, seja resultado necessário da natureza humana, cuja essência é justamente a capacidade das pessoas de se desvincular dos condicionamentos rotineiros mais comuns e, subvertendo, na medida do possível, a própria ordem de sua condição animal, criar seus próprios ritmos e modos de vida.

Ele, antes do que uma duvidosa, mas provável,  derivação de nossa condição biológica, é a consequência das bases tecnológicas e ideológicas do nosso quotidiano, onde a imensa maioria da humanidade vive espremida na urbe permanentemente iluminada e vinte e quatro bombardeada pela mídia, que dentro da casa do sujeito mais recluso e avesso à diversão, cria atrativos para que dificilmente durmamos antes da meia-noite ou do início da madrugada.

Como hábito social correspondente a um ciclo natural, o acordar cedo fazia parte de um mundo em que, inexistindo luz elétrica, a imensa maioria de nós vivia no campo, na economia rural, onde é imprescindível se adaptar aos horários dos animais de criação para cuidá-los,  e se dirigir à lavoura nas horas mais frescas, para evitar o trabalho por si só penoso sob as agruras do tórrido sol do meio do dia.

Não havendo o que fazer, e até para economizar os custosos e precários meios de iluminação (a vela, a lamparina, o lampião) as pessoas jantavam e iam para a cama logo após o escurecer e levantam-se, como todos os demais mamíferos de hábitos diurnos, com a aurora.

Nesta época, a meia-noite era o mágico e misterioso horário das assombrações justamente porque não se encontrava NINGUÉM acordado andando pelas ruas (estradas, campos e florestas) ou casas. E quem se aventurase a fazê-lo via-se exposto aos horrores fantasmagóricos da escuridão e da penumbra e aos ruídos estranhos e sobressaltantes da própria natureza.

A imensa maioria da humanidade, neste horário já estava, no mínimo, no meio da noite de sono e daí a umas quatro horas estaria assistindo o nascer do sol e indo dar comida ao pangaré e tirar leite da mimosa.

Ubirajara Passos

Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

“Recuerdos”


No tempo em que as luzes nasciam no fogo
Em que os candieiros ardiam encharcados
Na embriaguez da querosene,

As noites guardavam profundos mistérios
E as sombras espessas abrigavam, gratuito,
Em capotes pesados os velhos “assombros”.

No tempo em que a música nascia nos dedos
Dos menestréis rústicos, vibrando nas cordas,
Em que o sopro das flautas fazia dueto
Com o minuano gélido que nos arrepiava

Tudo era menor
E o tempo, mais lento,
E vivíamos mais próximo da essência de nós mesmos.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Ubirajara Passos

Madrugada de verão


Noite velha.
Varandas floridas.
Estrelas cadentes.
Frias ventanias.

Redes balançando e embalando sonhos
Antigos como estampas
Floridas, desbotadas,
Das salas de antanho.

Velha lua bêbada tropeçando em astros
E formando halos cálidos em gélidas nuvens
Com seu bafo amargo de puro absinto.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Lirismo bêbado


Viaja nas sombras do verão
Uma brisa inspirada que às cigarras
Acompanha num dueto insano.

E, embalado nos ritmos das três,
O velho poeta, no jardim selvagem,
Balança à rde, entorpecido em ondas
Do doce devanieo da cevada.

Gravataí, 16 de dezembro de 2015.

Ubirajara Passos

Um amor informal


Na sexta-feira, depois do expediente, saiu-me, em meio a pasmaceira de uma semana de muito trabalho, o poeminha que segue, que embora não tenha condições sequer de se qualificar como literatura, aqui vai publicado para sacudir a poeira deste melancólico e abandonado blog:

Um amor informal

Encontravam-se fortuitamente.
E, em cada breve instante em que se viam,
Não havia mundo, nem tempo.
A eternidade
De um segundo lotava o universo.

Não se tocavam. As declarações
Ou promessas eloquentes não haviam.

Eram sorrisos, diálogos banais.
Nada aparente que pudesse denunciar
A intimidade que fluía, natural,
Sem protocolos nem expectativas.

Mas, sem exigências, nem imposições,
Eram velhos parceiros de há pouco conhecidos
E o comezinho, o verdadeiro paraíso.

Gravataí, 20 de novembro de 2015

Ubirajara Passos