A todos os amantes, neste dia


O amor é uma energia que ultrapassa o desejo. É a comunhão dos seres na totalidade, muito além de simpatias casuais. 

E quando corpos comungam com amor  há uma elevação do ser bem maior do que o prazer individual. Os amantes não são objetos, mas metades da mesma ternura, unidos na intensidade do amor.

Comungando ou não, e mesmo rejeitado, pisado e escarnecido, este é um sentimento verdadeiro que jamais se extingue.

Gravataí, 12 de junho de 2014

Ubirajara Passos

Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

Soneto do Penúltimo Dia


Profundo sábado,
Refúgio sagrado,
De todos êxtases,
És de outra esfera.

Viceja em ti
Um gozo tão sereno.
Não há canção que não conduza às lágrimas.
Não  há cachaça que não alargue a alma.

Em tuas noites
Qualquer raio de lua
É uma viagem às esferas do nirvana.

E qualquer banco de praça nos conduz
Aos mais estranhos deleites
Dos altares ou das camas.

Gravataí, 3 de dezembro de 2012

Ubirajara Passos

O Ermitão


Poeminha cretino surgido em meio ao tédio do final de sexta-feira:

O Ermitão

Ele era um chato,
Pra caralho um chato!
Velho eremita bêbado, vivia
Em transe etílico no seu castelo.

Sua companhia eram cães e gatos,
E a vizinhança debatia, ardente,
Se era bruxo, veado ou lobisomem!

Muitos rondaram a velha propriedade,
Bisbilhotando, sem ouvir um ai
E mais entediados voltaram que o asceta.

Ninguém supunha as fantásticas orgias
Que, nas viagens astrais, realizava
Com sílfides e ondinas deslumbrantes!

Gravataí, 30 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Quinto Dia


Sexta da cerveja,
A tua noite reveja
A velha boemia de eras distantes.

Traga o fim do dia
A redenção divina
Da cruz do serviço
Às três horas da tarde.

E, o batismo no copo,
A iluminação
No altar do buteco,
Em comunhão bêbada.

Na noite exaltada
Mergulhemos rumo
Ao paraíso das setenta mil loucuras!

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Terceiro Dia


Terceiro poema da Heptalogia de Novembro (título sugerido pelo Carlão, ontem à tarde):

Soneto do Terceiro Dia 

Quarta-feira linda,
Velha namorada,
Sol e ventania,
Saias levantadas! 

Suave e esperançoso
Topo da semana,
Faz-nos rir a toa,
Num bater de asas! 

As feiras são feiras,
Mercúrio, o mensageiro,
Entrega-nos cartas de pura bonomia. 

E nosso olhar se perde,
Apesar da rotina,
Nas coxas sedosas daquela messalina. 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

 

Maldição


Poeminha pessimista que escrevi em Porto Alegre, uma semana antes de viajar para a “fazendola” do alemão Valdir, em “Esquina União”, às margens do Rio Cascavel, que dá nome à localidade fronteiriça (Rincão Cascável), no distrito do Mato Grande, interior do município missioneiro e gaúcho de Giruá:

Maldição

Maldito seja o sadismo que sepulta,
Antes mesmo do próprio nascimento,
Os suspiros de tesão e os gritos de prazer!

Maldita a tirania introjetada
Que interdita aos seres a doçura
Dos afagos e dos fogos mútuos,
A uns secando a vida em soberbia,
A exigir mil predicados para a entrega,
E a outros frustrando e sufocando o impulso
Na rejeição cheia de si dos desejados.

Maldita seja a manipulação hipócrita e infame
Que, atendendo pelo apelido,
De moral, etiqueta ou estética
Separa corpos, dilacera almas,
Infelicita meia humanidade

E cria este poema empolado e seco
Cheio de eruditismos e ademanes
Para tratar de assunto, ao natural,
Irreverente, malandro e folgazão!

Porto Alegre, 3 de fevereiro de 2012

Ubirajara Passos

O duplo trote


Atabalhoado em meio ao trabalho na repartição pública falida, o sujeito estava bom de dispensar qualquer um que insistisse em lhe interromper “por motivos fúteis”, mas a estranha solicitação do colega, feita pelo MSN corporativo, o sacudiu do transe dos cálculos e o colocou em estado de completa disponibilidade, digna de matrona fofoqueira de arrabalde.

Afinal pra que diabos o cara queria saber se havia orelhões no caminho que fazia até em casa,  no intervalo do meio-dia, para baratear o custo do almoço (que até mesmo o prato feito de buteco escroto andava proibitivo para seu salário de funcionário encalacrado)? E, o que era pior, porque queria que lhe ligasse para o celular justamente quando estivesse passando pelo orelhão?

Imbecil o velho amigo e colega, removido para a região do planalto há alguns anos, depois de ter passado pela campanha(com o que se achava longe de Gravataí há uma década) não era. Logo havia alguma matreirice, alguma sacanagem extremamente sofisticada naquela história. A coisa devia ser, além de inusitada, saborosa e instigante.

Mas a reina rotineira o impediu de atender às repetidas solicitações, apesar das vãs promessas em fazê-lo. E assim, depois de vários dias sendo xaropeado (e se esquivando, disciplicentemente), não teve jeito. Se viu forçado a anotar o número que o camarada teimava em lhe fornecer (um banal telefone residencial em Gravataí) e, aproveitando o primeiro telefone público à vista, em frente ao hospital Dom João Becker, sob o testemunho sonolento de um sol de inverno a “meio pino”, cumpriu as instruções.

Ligou para o telefone indicado e deixou tocar para que a criatura desconhecida do outro lado da linha imaginasse que o seu colega se encontrava na cidade, como o tipo  lhe explicara para justificar a coisa toda  (como ela poderia imaginar que se tratava dele, ainda que possuísse identificador no aparelho, e justamente vendo um número gravataiense qualquer era um mistério que se encontrava relacionado, com certeza, ao horário do telefonema e a outras circunstâncias bastante suspeitas e imagináveis).

Lá pela 4 h da tarde, na hora do outro intervalo, em que costumava empurrar um sanduíche na correria do expediente, quando perguntou, em meio ao relatório do fato, se o alvo da ligação era uma mocréia ou uma gatinha (afinal podia ser a mãe ou até uma tia velha), o amigo reagiu “indignado”:

- Porra, mas tu é foda! Eu te falei pra dar somente um toque. Como é que liga a cobrar, deixa atender e ainda faz a pessoa arcar com o prejuízo de um trote mudo! Ah, ah, ah, ah! Deve estar doida! Tava muito braba?

- Não. Pelo tom da voz creio que te perdoou. Mas vem cá, que negócio é este de marcar encontro com amante em pleno meio-dia? E que senha braba é esta? Ligar de orelhão em hora fixa? A cobrar ainda por cima? A gostosa acredita que tu é tão miserável que não tem nem um celular sem chip e te dá pelo simples prazer ou é alguma velha que te alcança uns cobres?

- Tu é espertinho, hein? Já tá querendo saber demais. Mas é uma gatinha! E ronrona que é uma maravilha! Ainda mais quando senta no colinho e ganha um presentinho. Isto de dar toque de orelhão faz parte do sigilo. É pra evitar encrenca. Não da minha parte, que morando fora da cidade a minha jararaca não tem a menor possibilidade de desconfiar. Mas ela tem um corno brabo, um piazão babaca, nada manso o guampa torta! Não gosta dele (o guri é “precoce”), mas atura por causa da exigência da família. E, não fosse pobre, nem precisava lhe dar nada. Já disse, a ingênua, que,  se um dia enricar, paga o motel pro cavalo véio aqui, que prefere o meu trote experiente que a cavalgada estabanada do potrinho crivado de espinhas.

- Ah, tá! Imagino! – E, enquanto desviava o assunto para velhas anedotas de mais de uma década, o nosso herói sorria, sarcasticamente, com aquele ar de gato mirando passarinho. O amigo cheio de cuidados era apenas mais um de uma lista interminável de ilustres trouxas, todos temerosos do fantasmagórico namorado ciumento e incompetente, que frequentavam a alcova da coisinha linda mediante o oferecimento espontâneo de um considerável mimo. Assim lhe revelou a loirinha  mignon, fogosa e doidinha por uma cerveja, em meio à sacanagem na banheira de hidro-massagem do motel, dando boas gargalhadas, quando ele, malandro velho, lhe contou as precauções misteriosas do amigo.

Não só havia deixado a guria atender, como havia encetado longa e sinuosa conversa mole ao telefone, e o resultado fora uma tarde de imenso e intenso prazer com o objeto da paixão extra-conjugal do colega metido a sedutor.

Ubirajara Passos

 

Galileu Galinhei


Galileu Galinhei era um gringo tarado do século XVII que não podia ver se movimentar na sua frente qualquer coisa que usasse saias, vestido ou indumentária semelhante, inclusive batinas, sem ficar de pau em riste, esbugalhar os olhos e, babando e relinchando como doido, por-se no encalço do infausto objeto de sua entusiasmada atenção. O que justificava o apelido que acabou por incorporar-se ao nome.

Nascido em Pisa, no século anterior, há quem atribua seu apetite inextinguível a uma mística ligação com o nome da própria cidade cuja torre inclinada se constitui no único monumento fálico meia-bomba do mundo, e seria derivado (segundo os biógrafos falcatruas) de”Piça”.

O fato é que Galinhei, tendo sido coroinha, e aluno preferido na escola dominical, em sua terra natal, afeiçoou-se tanto à batina (e às guloseimas com que o mimava o padre no quartinho escuro, ambos sós, depois das aulas), que quis se tornar monge. Seu pai, preocupado com o interesse incontrolável do filho pelo corpo humano, e temendo vê-lo desencaminhado em sua masculinidade, resolveu mandá-lo estudar medicina na escola local. Flagrado, entretanto, em plena aula de anatomia, pelos colegas, utilizando um instrumento impróprio na dissecação de um defunto, acabou expulso não só da escola, mas da própria cidade (dizem alguns que não em razão do bizarro incidente, mas por influência do padre Pedrinho, muito apegado ao estudante, e que se sentira abandonado por Galinhei, quando este foi forçado a desertar do seminário). 

Exímio nas quatro operações, o jovem sátiro, divertia-se, nos raros intervalos em que lhe permitia o tesão imenso, com cálculos “inúteis” e consta que foi, nas aulas práticas de medicina, quando treinava a cura da histeria em algumas jovens aldeãs, por métodos nada convencionais, que, observando o vai e vem das tetas das colonas gringa, ao cavalgá-lo em pelo, notou que a extensão deste movimento no ar não dependia da fartura ou magreza dos seios, mas era igual conforme o seu comprimento (diga-se, de passagem, que as conterrâneas de Galinhei não pareciam ser exatamente as gringas mais favorecidas pela “lei da gravidade”, descoberta pelo judeu londrino Isaque, se celebrizando por serem bastante caídas). Foi assim que inventou o pêndulo.

Com tais pendores, acabou matriculado pelo pai em uma escola de Matemáticas em Pádua, aonde descobriu que a velocidade da queda não depende do peso, ao fazer umas experiências com suas bolas em plano inclinado sobre o lombo das putas do mais famoso cabaré da cidade. Fossem gordérrimas ou verdadeiros esqueletos, todas íam abaixo, despencando sobre o catre do bordel, exatamente no mesmo tempo, quando o Galinhei safado retirava sua enorme régua de seus receptáculos dianteiros e a cravava fundo em sua bunda.

Caindo na besteira de incluir na tal experiência a marafona preferida de um nobre, acabou corrido a pauladas e foi se refugiar em Florença, onde se achava, no início dos anos 1600, se dedicando pachorrentamente a suas duas distrações preferidas: a putaria e os números.

E foi lá que deu o azar, até então inédito, de ver-se rejeitado. Galinhei, além de fogoso e mestre em cálculos, era o típico sedutor italiano e não havia mulher, virgem ou puta, solteira, casada ou qualquer coisa similar, que resistisse ao seu verbo (embora haja quem diga que ele era mesmo um chato:  as gringas acabavam lhe dando para não terem de suportar mais suas barrocas arengas). Seja como for, lá Galinhei encontrou a mulher mais gostosa e interessante de todo seu vasto repertório. E justamente ela, por que daria a vida para ao menos ver nua, não queria nada, e fugia do próprio Galileu como o capeta de católicos e protestantes, naquela época de guerras religiosas  em que ambas as correntes se digladiavam até a morte para ver quem enviaria mais fiéis da seita inimiga ao inferno na ponta de suas espadas, nos instrumentos de tortura e nas chamas do “amor divino” (em cujas fogueiras a igreja católica era imbatível).

Pirado e emputecido, Galinhei não pensava em outra coisa e até largou das putas, das viúvas e das vistosas esposas dos camponeses dos arredores, para se dedicar exclusivamente à sua obessão platônica. E foi em meio à esta crise existencial que chegou-lhe às mãos um dos primeiros exemplares importados de uma novidade que veio  a calhar aos seus propósitos: o  telescópio. Durante noites e madrugadas Galinhei, pendurado nos galhos de uma árvore fronteira espionou as janelas do quarto da amada, com o artefato em punho, tentando enxergar-lhe a loira e voluptuosa nudez sem sucesso! E, finalmente, naquela sexta-feira de lua cheia, em pleno outono, conseguiu o intento. Branca e redonda, enorme, surpreendemente, estava lá se sacudindo, enquanto subiam pelas pernas as calçolas, aquela entusiasmante bunda, quando Galinhei, num movimento falso, perdeu o precário equilíbrio (pois segurava o telescópio com uma mão enquanto a outra fazia o serviço solitário, se apoiando no tronco com as coxas) e foi ao chão, dando uma tremenda cabeçada!

Colhido por um transeunte, o professor devasso foi levado ao hospital, onde, se acordando na manhã, seguinte, instado pelos amigos sobre o acidente, e ainda meio tonto, possivelmente delirando pronunciou a famosa frase, se referindo à bunda da gostosa: “i por si muove!”

Padre Pedrinho, seu antigo mestre, que andava na cidade, sabendo da história (que não havia ninguém mais popular na pátria do mais famoso poeta do amor platônico, que Galinhei naquela época), tratou de intrigá-lo e foi correndo a Roma fofoquear que o matemático havia dito que a Terra se movia sozinha, sem a intervenção de Deus, e, o que era pior, não era o centro do universo (parece que Galinhei, meio sonolento ainda, falara mesmo no hospital que a Terra girava ao redor da cobiçada bunda, quando interrogado sobre a estranha frase que recém berrara), mas andava ao redor do Sol!

Enrolado involuntariamente nas intrigas ideológicas e políticas da padralhada, por pouco Galinhei não perdeu a vida  na festa de São João do Papa. Conta-se a boca pequena que se salvou da fogueira não negando publicamente uma afirmação que, efetivamente, jamais fizera, mas mostrando ao papa (que comungava com ele, como era moda naqueles tempos entre os supremos mandatários da igreja,  a admiração por belas donas “boas” – como se dizia nos anos sessenta do século XX) um retrato que da formosa bunda, que lhe fizera, por encomenda e conforme as indicações de suas recordações, o neto de um pintor gringo famoso, também ele pintor, ainda que medíocre, o qual compartilhava com o avô o nome, e um epíteto que lhe simulava o sobrenome: o Leonardo Dá Vinte!

Ubirajara Passos

Isaque, o nihil tom, e a puta força!


Isaque era um professor judeu de meia-idade. Para ser exato, um quarentão cabaço, terrivelmente excêntrico e distraído.

Sua excentricidade incomum principiava na própria condição étnica. Pois sendo um judeu, filho de um comerciante judeu, e (agravante indefensável) judeu inglês, cuja família se encontrava radicada na ilha há séculos, negou-se terminantemente a suceder o pai no bolicho londrino, dedicando-se ao infausto, mal quisto, mal visto e mal remunerado ofício de mestre-escola de meninos burgueses, numa época em que ser burguês era coisa equivalente à ralé de nossos dias (ao menos para os falidos e soberbos nobres de então).

Jacó, seu pai, havia percebido, que o rapazinho, desde novo, tinha um ar e uns hábitos estranhos. Ao invés de correr as guriazinhas goens do vilarejo, preferia andar, ensimesmado, pelos obscuros becos, com a cabeça na lua e os pés tropeçantes, como se pisasse sobre um colchão de penas de ganso e não sobre a terra dura e fria.

Suspeitava mesmo que o filho era veado e só não o levou ao rabino, para as devidas admoestações, porque o estranho piá, apesar do ar fresco e abestalhado, também não chegava perto de guris. Preferia passar o dia a conversar sozinho nas esquinas.

Crescido, já o pai morto, Isaque liquidou o comércio da família e, para decepção de sua mãe, irmãs e primos, abriu aula pública para filhos da nascente burguesia mercantil-marítima, garantindo algumas vagas, custeadas pelos cobres herdados, a ranhentos filhos da ralé suburbana, que diferiam dos demais alunos por sua compleição física um tanto avantajada e rudes hábitos zoófilos.

Mas Isaque não era um professor comum. Apesar de sua propensão ao pouco lucro e, contrário à sua raça, à ingenuidade própria dos mais imbecis otários, Isaque, como todas as gerações que o antecederam, era exímio em cálculos, e bastante criativo. O que não lhe favorecia nem um pouco a ilustre condição de bocaberta. Era famosa em toda a Londres do final do século XVII a anédota sobre o dia em que foi cronometrar o tempo necessário ao cozimento de um ovo no forno à lenha e introduziu neste  o relógio, ficando a segurar o ovo (por motivos bem mais puros e precários do que poderiam supor seus maledicentes vizinhos, cuja diversão preferida era espionar o jardim de sua chácara, quando nele se reunia a pequena multidão de mancebos em idade púbere).

Ermitão esquisito,  com fama de puto,  portanto, Isaque, surpreendentemente, tinha por melhor amigo um sujeito enfronhado na pior ralé do baixo meretrício da antida Londinium. E foi por sua insistência, heróica e veemente, que um dia resolveu abandonar  quadro negro e estrado, dando-se à futilidade de ir percorrer, em plena e apavorante madrugada, a zona da capital bretã.

Como convém a todo chato intelectual burocrático e moralista, Isaque era abstêmio. E, herança maldita que integrava a essência da índole herdada, tão recalcitrante (apesar da rejeição voluntária), era pão-duro. Assim, quase bota a perder a vantagem do amigo, que o levava ao cabaré do Peter em troca dos favores gratuitos das ilustres falenas rubras, justificado apenas na valorização que a fama da presença do ilustre mestre haveria de trazer à casa, situada às margens do então cristalino Tâmisa. Chegado às dez da noite, eram três horas da manhã e, entediado e bocejante, o seco professor não havia se disposto a pagar uma única dose a qualquer das dadivosas e dedicadas girls e já começava a causar rebuliço entre o plantel de pinguanchas, exasperadas com a chatice e a inexistência da clássica porcentagem sobre o vinho, ainda que obrigadas pelo rufião-proprietário do bordel a sentar-se à mesa do urubu narigudo, todo vestido  de preto (com olhar parado e turvo de sádico dominador).

O homenzinho, além de empolado e discursante (de uma conversa enigmática, pedante e enjoativ) era brocha. As putas desdobravam-se na maior loucura, se esfregavam em pelo no colo do infeliz, bolinavam-lhe e lhe lambiam a cara e NADA!

Mas eis que chegado próximo ao encerramento da função noturna, apavorado, o pobre amigo tratou de fornecer-lhe, sem aviso, uma estranha erva no cachimbo, e o qüera, enlouquecido, pôs-se sobre a mesinha circular, completamente nu, com o tarugo em riste, a cantar e gesticular, desafinado, se esvaindo em gargalhadas.  Num giro histérico, foi deitar o olhar justamente na Clotilde, a mais rechonchuda e desvalorizada camareira do lugar, que naquela hora passava pelo salão com um rolo de lençóis entre o único quarto e a tina de lavar.

Doidão como estava, não houve quem pudesse convencer Isaque, jegue emaconhado, a largar mão da tia e grudar uma mariposa nova e bonitinha. E assim foi, saltitante, histérico, aos gritos e relinchos, para um infecto cubículo, onde, à luz cambaleante do candeeiro, Clotilde, entusiasmada (que fazia uns bons vinte anos nem cego ou marinheiro torto se dispunha a lhe ralar as carnes) sacou as roupas de um único e arrebatado coice. Apavorado com o enorme e esburacado traseiro, que mais parecia um queijo (ou a lua, como o professor a vira ao telescópio), Isaque ficou sóbrio num segundo e, vendo aquela coisa molenga e pesada lhe pender sobre o caralho, agora falecente, entrou em transe matemático, e, num insight histórico, formulou a clássica e irrefutável teoria que explica o funcionamento do universo.

Havia uma força muito grande, absurdamente séria e preocupante, que o havia conduzido ao sujo catre  e fazia aquela colossal buzanfa flácida pender sobre o seu púbis e lhe esmagar os ovos magros, sem apelação, fazendo-o esbugalhar os olhos num movimento reativo da cabeça de baixo ao topo da de cima. Não sabia como explicá-la, embora pudesse calcular em detalhes o impacto e a trajetória. E sendo tão grandiosa e infelicitante, num lance genial, a denominou, diante da situação periclitante, de FORÇA DA GRAVIDADE!

Ubirajara Passos