Lua Nua


Poema escrito hoje de manhã, enquanto vinha para o trabalho, a pé, ainda inspirado na fantástica lua de sábado passado (a mais próxima da terra em 18 anos, fiquei sabendo hoje em um blog do wordpress):

Lua Nua

Ó lua nua, que te mostras,
Despudorada, a toda humanidade,

Tu nos incitas, com tua pele branca,
A mente e as pernas a vagar nas madrugadas
Frias do outono,

Conduz-nos com este teu olhar
A obscuros e cálidos refúgios
E faz-nos uivar,
Encharcados de cachaça,
No frenesi do gozo sem barreiras.

Gravataí, 21 de março de 2011

Ubirajara Passos

Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal


Segue abaixo publicado um pobre poema que escrevi hoje à tarde, entre o vento varredor compulsivo e a simpatia fascinante e as gracinhas de minha filha Isadora, que, nos seus profundos e espontâneos dois aninhos, encarna  um buda embriagado no epicurismo (toda feita de sorrisos e travessuras que, indagada sobre o que está fazendo, responde, entusiasmado que é “arte!”):

Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal:

A tarde corria
Embalada no vento,
Ao sussuro da aragem,
No arrepio da brisa.

Na tépida sombra
Do arvoredo antigo,
Refrescando a alma,
Aquecendo os corpos
A vetusta garrafa
De “São João da Barra”.

E o leal compadre,
Comparsa de eras
De boemia e trago,
Entre um gole e outro,
Lhe recomendava,
Por falta de assunto:

Companheiro velho,
Não te atires tanto
Na paixão da noite,
Desmanchando-te todo
No fogo do afago,
Na graciosidade
Das lindas tigresas
De pelo macio e tesão ronronante,
No vulcão do gozo,
No riso picante
E na sutil ternura
Dos salões sacanas.

É (clichê antigo)
Uma perda de tempo,
Um desgaste inútil,
E, acima de tudo,
É pura ilusão!

E o parceiro, inspirado
Pelo sagrado conhaque,
Redarguiu, entusiasmado:


Caríssimo amigo,
Sei que tens razão
Em tudo que me dizes,
Mas prefiro ainda
À realidade dura
E sem sal dos lares
Pequeno-burgueses,
Da opressão doméstica,
Uma gostosa e lúbrica ilusão!

Gravataí, 13 de novembro de 2010

Ubirajara Passos

Caso estrambótico de austero “pai de família” levado, por engano, a uma boate gay:


Como uns companheiros meus, fiéis leitores deste blog, me alertassem que faltava um paralelo masculino a um dos poemas publicados (o da secretária de multinacional que foi ao buteco escroto), já que o ontem publicado dava conta, de certa forma, do da patricinha de repartição pública que caiu na esbórnia, segue abaixo mais uma pérola da “antropologia satírico-sexual” deste ilustre pseudo-tarado-machista-homofóbico que vos escreve:

Caso estrambótico de austero “pai de família”
levado, por engano, a uma boate gay:

Nunca, em toda sua vida,
Foi dado à boêmia pândega.

Era como um relógio
De sol esculpido em mármore.

Do trabalho para casa,
Da casa para o trabalho,
Dava-se o desplante, às vezes,
De assistir uma missa,
Ou de uma conversa rápida
Com o dono da farmácia.

Sério e seco como um tronco
De árvore morta infecundo,
Em casa não permitia
Lhe tratasse a cozinheira
Senão por senhor,
Com os filhos
Só tratava pra ralhar.

E, se alguém lhe contestasse
O infeliz estilo de vida,
Respondia, taciturno,
Mas em tom alto e grave:

Lhe pesavam sobre as costas
Graves responsabilidades,
Não havia tempo, portanto,
Para o fútil desfrute
Cheio de imoralidades,
Pois era um pai de família!

Um dia lhes convidaram
Para uma estranha festa,
Disseram, de aniversário,
Num obscuro salão,
Todo enfeitado com estrelas,
Luzes negras e, nas mesas,
Abajures cor-de-rosa.

Sentou ao seu lado uma “moça”,
Muito meiga e toda prosa,
Que, lhe garantiu, vivia
Para a mãe e os irmãos,
Muito devota ela era,
E, se voltava e meia, ali ía,
Era para garantir
À família o ganha-pão.

Piedoso, o nosso herói,
Cedeu-lhe aos rogos chorosos
E cometeu o sacrifício
De ir, sério, para a alcova
Apenas pra remediar
A horrível pobreza alheia!

E, quando, penitenciando-se,
Adentrava-lhe as carnes
Tenras de ovelha perdida,
Em posição de cachorro,
Levou-lhe a mão à virilha,
Num ímpeto não contido,
E quase enfarta de espanto,
Com aquela banana enorme
Em posição de sentido!

Gravataí, 21 de maio de 2010

Ubirajara Passos

O Valente Misógino


A fim de provar aos que, porventura, se deixaram influenciar pelas distorções divulgados pela chapa pelega nas últimas eleições do Sindjus-RS (a chapa 1 – Pra Seguir), ao divulgar os poemas “A Madame do Balcão” e “Causo Bizarro de uma Patricinha que foi de Tayeur ao Buteco”, e desistiram de votar na chapa por mim liderada (a chapa 2 – Movimento Indignação – por um Sindjus Independente, Democrático e Combativo),  que  não sou um terrível tarado machista, publico abaixo, ainda que depois do pleito, mais um poema satírico da série “sacanagens empíricas e sociológicas da pequena burguesia e da peonada orgulhosa”:

O Valente Misógino

Era macho pra caralho,
Tanto que chá não tomava,
Mas emborcava uma “pura”.

Os cabelos não penteava,
Alisava suas crinas.

De novela não gostava,
Que era coisa de fresco,
E futebol só assistia
Em buteco sem mulheres.

Se o olhassem atravessado,
Botava bronca tremenda,
Quebrava mesas com socos,
Fazia voar cadeiras.

Caneta não empunhava,
Porque não era um molenga.
Orgulhava-se, estufado,
De se fuder carregando
Nas costas uma pedreira.

E avesso a fru-frus, fraquezas
Rendas e romantismos,
Evitava as gatinhas
Ronronantes, as gostosas
Cheias de dengo e malícia.

Preferia, rija e forte,
A companhia bagual
Dos culhudos orgulhosos.

E, pra provar que maricas
Não tinha como virar,
Não usava papel higiênico,
Mas um sabugo bem grosso
No cu curtido em urtiga!

Gravataí, 20 de maio de 2010

Ubirajara Passos

O Salmo 24 da Bíblia do Capeta


Um velho amigo meu, que prefere se manter no anonimato (e  não é o alemão Valdir, nem o Gérson Monteiro ou o Jorge Dantas), me solicita que publique resumidamente a sua história neste blog e a primorosa peça literária que acabou por compor, puto da vida com as “correntes” infindáveis que tem recebido pela internet.

Segundo a infeliz criatura, além do verdadeiro dilúvio de e-mails desta natureza, que acabou por fazê-lo desistir até mesmo de ler as demais mensagens que recebe, as famosas correntes foram responsáveis até mesmo por uma unha encravada e uma urticária braba debaixo do sovaco. Não é que alguma daquelas malditas pragas tenha caído sobre ele por desconsiderar as recomendações da corrente e deletá-la, mandando tudo às favas. A irritação violenta é que lhe fez dar um trombaço feio com o dedão no pé na escrivaninha e se ralar todo coçando as axilas, de pura raiva!

Na verdade, embora não acredite nas ameaças, o meu amigo, um tanto otimista além da conta, gastou horas e mais horas, e todo o seu estoque de credulidade, na esperança de ver atendido algum dos milagres babacas prometidos. E depois de repassar cem vezes a mesma asneira, às 3 h da madrugada, para os mesmos contatos de sempre (o que lhe rendeu o rompimento e a inimizade até mesmo daquelas gatinhas fogosas e gostosas, meio pancadas da cabeça, que tinham coragem de tomar um trago e fuder com ele volta e meia), nunca obteve a graça de receber o mais simples telefonema anunciando que havia ganho o prêmio do primeiro ao quinto no jogo do bicho, na hora prometida na corrente.

Assim é que, furioso com as invasivas e insistentes mensagens de sempre (que passou a responder com os piores impropérios e palavrões possíveis, sem conseguir dissuadir seus autores), especialmente com o Salmo 23, que já deve ter recebido no mínimo 1.544 vezes, das quais umas oitocentas repassou sem o menor resultado, resolveu se vingar compondo O Salmo 24 da Bíblia do Capeta, que me enviou pedindo que o publique, e reproduzo abaixo:

Oração da Cabritinha ao seu amado Pastor Zoófilo:

O pastor é o meu fodedor
E nada me faltará.

Deita-me em verdes pastos
E cobre-me mansamente
Em águas tranqüilas.

Refrigera as minhas nádegas,
Guia-me pelas veredas da impudicícia,
No amor do meu homem.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra sem sorte,
Não metereis mal em mim,
Porque tu estás comigo.
A tua
vara e o teu cajado me consolam.

Prepara-me uma mesa perante os teus amigos,
Unge-me à beça com teu
óleo,
O teu
cálice sobre mim transborda.

Pois certamente,
Com a tua sacanagem e a minha concórdia,
Me cobrirão todos os dias da minha vida
E habitarei na casa de meu fodedor para todo o sempre.

O meu pobre e desbitolado amigo insistiu muito que eu deixasse claro o quanto se sente feliz dedicando o edificante poema aos seus benfeitores, que certamente se rejubilarão e morrerão de felicidade e encanto com a grata e humilde lembrança que lhes dedica.

Ubirajara Passos

 

 

Receita para trilhar seguramente a existência:


 Alguns ecos da leitura de “Cartas a um jovem poeta”, de Rilke, o embalo do seriado “Dalva e Herivelto” (exibido pela Rede Globo, nesta semana) e uma inspiração súbita, cuja redação foi adiada desde a semana anterior a do Natal, resultaram no poema abaixo publicado, escrito na quentíssima e modorrenta tarde de ontem:

Receita para trilhar seguramente a existência:

Quando fores, meu amigo, olhar a vida,
Com o olhar indefeso de quem mira
Um abismo pétreo à luz da alvorada, 
 

Não a encares de frente,
O rosto sério
E o queixo erguido, com ares de bravata.

 A enfrente, sim,
Com toda consciência,
E tome uns fortes goles de coragem, 
 

Mas faça como se estivesses no salão
De um cabaré de quinta, paquerando
Uma bela puta, com o olhar dissimulado.
 

Faça aquele ar de cão perdido,
Pisque o olho,
Mas tenha sempre à mão
Dois reais de malandragem, 

 Que a vida, camarada, rebola como gata,
Mas é uma velha marafona esquiva
E nocauteia o falso cafajeste
Que não a saiba seduzir completamente;
É onça braba, 
 

Que, envolvida na conversa mole
Mil vezes superior à sua lábia,
Perde os arroubos de fera,
Amansa e mia apaixonada.
 

Gravataí, 9 de janeiro de 2010 

Ubirajara Passos 

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:


Diz o velho aforismo que “cabeça desocupada é oficina do diabo”. Pois é o que parece que me aconteceu ontem, lá pelo meio-dia, entre uma navegada pela internet e uma ou outra risada gostosa e moleque da Isadora, brincando comigo – que acabou por desaguar no poeminha cretino e safado que segue, daqueles da série “sacanagens sociológicas empíricas da pequena-burguesia”:

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um
banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

Andava muito enjoada
De festinhas fashion, teatro,
Exposições e frescuras,
E, desejando loucuras,

Foi ao bar, sentou na mesa,
Logo veio um cafajeste
Com aquela conversa mole,
Lhe elogiou muito a beleza
E o papo intelectual
E convidou-a a beber.

Abobalhada com o tipo,
Tomou quatro uísques duplos
E acordou com hemorróidas.

Não sabia, até então,
Que “líquido alcoólico com gelo”,
Quando empinado em excesso,
Dor no cu causar pudesse.

Gravataí, 12 de novembro de 2009

Ubirajara Passos