O Valente Misógino


A fim de provar aos que, porventura, se deixaram influenciar pelas distorções divulgados pela chapa pelega nas últimas eleições do Sindjus-RS (a chapa 1 – Pra Seguir), ao divulgar os poemas “A Madame do Balcão” e “Causo Bizarro de uma Patricinha que foi de Tayeur ao Buteco”, e desistiram de votar na chapa por mim liderada (a chapa 2 – Movimento Indignação – por um Sindjus Independente, Democrático e Combativo),  que  não sou um terrível tarado machista, publico abaixo, ainda que depois do pleito, mais um poema satírico da série “sacanagens empíricas e sociológicas da pequena burguesia e da peonada orgulhosa”:

O Valente Misógino

Era macho pra caralho,
Tanto que chá não tomava,
Mas emborcava uma “pura”.

Os cabelos não penteava,
Alisava suas crinas.

De novela não gostava,
Que era coisa de fresco,
E futebol só assistia
Em buteco sem mulheres.

Se o olhassem atravessado,
Botava bronca tremenda,
Quebrava mesas com socos,
Fazia voar cadeiras.

Caneta não empunhava,
Porque não era um molenga.
Orgulhava-se, estufado,
De se fuder carregando
Nas costas uma pedreira.

E avesso a fru-frus, fraquezas
Rendas e romantismos,
Evitava as gatinhas
Ronronantes, as gostosas
Cheias de dengo e malícia.

Preferia, rija e forte,
A companhia bagual
Dos culhudos orgulhosos.

E, pra provar que maricas
Não tinha como virar,
Não usava papel higiênico,
Mas um sabugo bem grosso
No cu curtido em urtiga!

Gravataí, 20 de maio de 2010

Ubirajara Passos

O Salmo 24 da Bíblia do Capeta


Um velho amigo meu, que prefere se manter no anonimato (e  não é o alemão Valdir, nem o Gérson Monteiro ou o Jorge Dantas), me solicita que publique resumidamente a sua história neste blog e a primorosa peça literária que acabou por compor, puto da vida com as “correntes” infindáveis que tem recebido pela internet.

Segundo a infeliz criatura, além do verdadeiro dilúvio de e-mails desta natureza, que acabou por fazê-lo desistir até mesmo de ler as demais mensagens que recebe, as famosas correntes foram responsáveis até mesmo por uma unha encravada e uma urticária braba debaixo do sovaco. Não é que alguma daquelas malditas pragas tenha caído sobre ele por desconsiderar as recomendações da corrente e deletá-la, mandando tudo às favas. A irritação violenta é que lhe fez dar um trombaço feio com o dedão no pé na escrivaninha e se ralar todo coçando as axilas, de pura raiva!

Na verdade, embora não acredite nas ameaças, o meu amigo, um tanto otimista além da conta, gastou horas e mais horas, e todo o seu estoque de credulidade, na esperança de ver atendido algum dos milagres babacas prometidos. E depois de repassar cem vezes a mesma asneira, às 3 h da madrugada, para os mesmos contatos de sempre (o que lhe rendeu o rompimento e a inimizade até mesmo daquelas gatinhas fogosas e gostosas, meio pancadas da cabeça, que tinham coragem de tomar um trago e fuder com ele volta e meia), nunca obteve a graça de receber o mais simples telefonema anunciando que havia ganho o prêmio do primeiro ao quinto no jogo do bicho, na hora prometida na corrente.

Assim é que, furioso com as invasivas e insistentes mensagens de sempre (que passou a responder com os piores impropérios e palavrões possíveis, sem conseguir dissuadir seus autores), especialmente com o Salmo 23, que já deve ter recebido no mínimo 1.544 vezes, das quais umas oitocentas repassou sem o menor resultado, resolveu se vingar compondo O Salmo 24 da Bíblia do Capeta, que me enviou pedindo que o publique, e reproduzo abaixo:

Oração da Cabritinha ao seu amado Pastor Zoófilo:

O pastor é o meu fodedor
E nada me faltará.

Deita-me em verdes pastos
E cobre-me mansamente
Em águas tranqüilas.

Refrigera as minhas nádegas,
Guia-me pelas veredas da impudicícia,
No amor do meu homem.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra sem sorte,
Não metereis mal em mim,
Porque tu estás comigo.
A tua
vara e o teu cajado me consolam.

Prepara-me uma mesa perante os teus amigos,
Unge-me à beça com teu
óleo,
O teu
cálice sobre mim transborda.

Pois certamente,
Com a tua sacanagem e a minha concórdia,
Me cobrirão todos os dias da minha vida
E habitarei na casa de meu fodedor para todo o sempre.

O meu pobre e desbitolado amigo insistiu muito que eu deixasse claro o quanto se sente feliz dedicando o edificante poema aos seus benfeitores, que certamente se rejubilarão e morrerão de felicidade e encanto com a grata e humilde lembrança que lhes dedica.

Ubirajara Passos

 

 

Receita para trilhar seguramente a existência:


 Alguns ecos da leitura de “Cartas a um jovem poeta”, de Rilke, o embalo do seriado “Dalva e Herivelto” (exibido pela Rede Globo, nesta semana) e uma inspiração súbita, cuja redação foi adiada desde a semana anterior a do Natal, resultaram no poema abaixo publicado, escrito na quentíssima e modorrenta tarde de ontem:

Receita para trilhar seguramente a existência:

Quando fores, meu amigo, olhar a vida,
Com o olhar indefeso de quem mira
Um abismo pétreo à luz da alvorada, 
 

Não a encares de frente,
O rosto sério
E o queixo erguido, com ares de bravata.

 A enfrente, sim,
Com toda consciência,
E tome uns fortes goles de coragem, 
 

Mas faça como se estivesses no salão
De um cabaré de quinta, paquerando
Uma bela puta, com o olhar dissimulado.
 

Faça aquele ar de cão perdido,
Pisque o olho,
Mas tenha sempre à mão
Dois reais de malandragem, 

 Que a vida, camarada, rebola como gata,
Mas é uma velha marafona esquiva
E nocauteia o falso cafajeste
Que não a saiba seduzir completamente;
É onça braba, 
 

Que, envolvida na conversa mole
Mil vezes superior à sua lábia,
Perde os arroubos de fera,
Amansa e mia apaixonada.
 

Gravataí, 9 de janeiro de 2010 

Ubirajara Passos 

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:


Diz o velho aforismo que “cabeça desocupada é oficina do diabo”. Pois é o que parece que me aconteceu ontem, lá pelo meio-dia, entre uma navegada pela internet e uma ou outra risada gostosa e moleque da Isadora, brincando comigo – que acabou por desaguar no poeminha cretino e safado que segue, daqueles da série “sacanagens sociológicas empíricas da pequena-burguesia”:

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um
banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

Andava muito enjoada
De festinhas fashion, teatro,
Exposições e frescuras,
E, desejando loucuras,

Foi ao bar, sentou na mesa,
Logo veio um cafajeste
Com aquela conversa mole,
Lhe elogiou muito a beleza
E o papo intelectual
E convidou-a a beber.

Abobalhada com o tipo,
Tomou quatro uísques duplos
E acordou com hemorróidas.

Não sabia, até então,
Que “líquido alcoólico com gelo”,
Quando empinado em excesso,
Dor no cu causar pudesse.

Gravataí, 12 de novembro de 2009

Ubirajara Passos

DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE


Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann

JOÃO VELHACO


Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande -
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos -
Discursos e mais discursos -
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

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Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

A MADAME DO BALCÃO


Há quinze dias sem escrever nada neste blog, nem em parede de banheiro masculino, depois de entornar uma garrafa de 960 ml da cerveja uruguaia “Norteña”, nada bêbado que estou para os padrões comuns (mas em porre de andar de quatro segundo a última legislação de trânsito fascista promulgada no Brasil, que penaliza até o pobre e idiota pequeno-burguês sem imaginação que tomou um copo de licor e foi dar uma voltinha de Pálio), fui possuído (no “bom sentido”) mais uma vez por um espírito repentista nordestino e, bêbado não-motorizado que sou, acabei parindo, do nada, o poema cretino que segue. Que, já vou avisando, não é nenhuma homenagem a gatinhas ou onças velhas que conheço. Qualquer coincidência é mera semelhança!

A MADAME DO BALCÃO

Foi dar o cu nas macegas
Ao som de músicas bregas
E acabou perdendo as pregas
Uma peruazinha chique,
Daquelas que tem chilique
Só de ouvir um palavrão.

Dizem que era funcionária
De repartição falida,
E, enjoada da lida,
Do diminuto salário
E das asneiras do chefe,
Caiu de boca na vida
E Resolveu se divertir
Com o primeiro “mequetrefe”
Que lhe cantou no balcão!

E, de entojada que era,
Cheia de não-me-toques
E afetada etiqueta,

Tornou-se uma “devassa”:
Muito pouco dá a buceta,
Só quer tomar no cuzão!

Gravataí, 6 de julho de 2008

Ubirajara Passos

PANEGÍRICO A SANTA BUNDA


Por incrível que pareça (o que no meu caso não é tão incomum), passei o feriadão no maior tédio, com exceção do dia de finados, em que, repetindo episódio já ocorrido em uma sexta-feira santa, fui transar com a minha gata preferida.

Ontem, pretendia ir à Feira do Livro de Porto Alegre, mas recebi visita: nada mais que a dona Preguiça. E assim, só saí de casa para ir ao Carrefour, recentemente inaugurado em Gravataí, onde acabei comprando a minha primeira garrafa de absinto, o “Lautrec”, que experimentei à noite. E não é preciso dizer que me apaixonei pela “fada verde” ao primeiro gole. Mas isto é outra história.

O fato é que, há dias sem nenhuma inspiração para escrever nada, após dormir até o meio-dia, e ler o blog da minha amiga “K.” – o Incompletudes -, não sei como, baixou em mim (gaúcho dos quatro costados) um estranho santo nordestino, o caboclo repentista do cordel (vai ver é efeito retardado do absinto), e acabei por parir o poema abaixo. Divirtam-se, se for possível:

PANEGÍRICO A SANTA BUNDA

Traseiro rima com travesseiro -
E, ainda que aconchegante,
Recostar nele a cabeça
É um desperdício solene
E um desprezo completo
À sua irmã menor,
Dita cabeça de baixo!

Nádegas me lembram águas
(Não baleias entre algas!),
As nadadoras gostosas
De qualquer uma olimpíada,
Mas, lhes tirando o “assento”,
A coisa vai pras adegas
E só resta do porre o orgasmo .

Já os “glúteos” mais parecem
Coisa de glutonaria,
Rabo de gorda ou engulhos
De tarado embriagado,
Com má cachaça, perante
O lombo de uma matrona.

A verdade pura e simples
É que no luso idioma
Não há termo mais perfeito
Para as carnes que revestem
O trecho final da coluna
Vertebral da humana espécie
Do que a quente e boa bunda!

Os sinônimos são insossos,
A bunda é bem mais profunda!
Não há como pronunciá-la
Sem se encher bem a boca
Como quem degusta, sôfrego,
Um excitante bombom,
Ou chupa uma doce manga!

Bunda não tem quebra-língua,
Até gago diz direto,
E tem um som explosivo
E ao mesmo tempo envolvente,
Que é o gozo do idioma!

Bunda com funda não há
Como confundir, embora
Tanto usado seja o adágio.

Na verdade a bunda afunda
Todo humano desespero
Sob um mar de entusiasmo
E ao êxtase aprofunda,
Quando arrebitada e bela -
Seja alva como a estrela,
Ou da cor da madrugada,

Boêmia pele morena
Que, rebolando ao batuque,
Na cadência dos tambores,
Revirou com as cabeças
Da velha portuguesada
E pintou um Brasil tisnado!

Se nádega é palavra fria
Da gélida Europa,
Bunda esquenta o sangue e cria
Um mundo de sensações…
Com a bunda não há tesões
Que, extintos, não se revolvam
E tragam à vida defuntos!

Na própria Bíblia está
Muito mal contada a história.
Pode até ter sido o Cristo
Que chamou do túmulo Lázaro,
Mandando-o erguer-se e andar,

Porém, o pobre cadáver
Só ressuscitou, afoito,
Porque, além do Nazareno,
Na sua frente avistou
Com dengo se remexendo
A bunda da Madalena!

Gravataí, 4 de novembro de 2007

Ubirajara Passos

DESVARIO NO PUTEIRO: O ENCONTRO DE CASTRO ALVES E GREGÓRIO DE MATOS


 

Antônio de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, morto de turberculose aos 24 anos de idade, em 1871, foi o grande inspirador literário da minha adolescência e juventude. Seus poemas grandinloqüentes e em tom de oratória fascinaram-me e me impregnaram profundamente. Já o safado Gregório de Mattos Guerra, pândego comedor de mulatinhas e madames, e hilário satirista político, só vim a conhecer quando avançava na década dos meus trinta anos, quando muito me diverti (desbocado e boêmio que sou) com seus poemas. Ambos os poetas baianos (um do século XIX, outro do XVI) estão na lista dos meus prediletos e, de certa forma, são arquétipos dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou.

O que nunca imaginei, porém, é que um dia, parodiando Castro Alves, na onda que ando curtindo de transformar clássicos da poesia nacional oitocentista em poemas de putaria, eu viesse a produzir uma peça digna do espírito de Gregório de Matos, sem a menor intenção consciente.

Assim, ai vai para diversão dos leitores entediados e horror dos inimigos da “pornografia” (que este blog está finalmente se aproximando de uma cena de sexo “explícito), a publicação da última estrofe do “Navio Negreiro” (justo o primeiro que li de Castro Alves, e que foi o responsável pelo meu fascínio) e a paródia que lhe escrevi:

O NAVIO NEGREIRO (6.ª estrofe)

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves

Castro Alves

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O DESVARIO DO PUTEIRO

Eu vou de novo à bandalheira, à festa
P’ra cobrir tanta dama e guria!…
Com a gueixa lambuzar-me é o que me resta,
Mandar pau duro na bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! Mas que rameira é esta,
Que, se impotente, ela do “cara” tripudia?
Silêncio. Puta… Chorna, e chorna há tanta,
E o paspalhão aqui foi cair no teu encanto! …

Ao rever-te, bundão de minha terra,
Que a piça, em desvario, beija e balança,
Quero saudar este teu cu em que a enterras,
E cujas pregas há perdido desde a infância…
Tu, que na sacanagem pôs-te em guerra,
Foste puteada, porque errou a dança?
Antes tivesses o cu roto na bandalha,
Que de ti rirem por tão pouca maravalha!…

Imensidade atroz que se mete até às bagas!
Que espirra nesta hora a todo mundo,
Ao trilho que no lombo abriu das magras
Como não íres, em pé, até o fundo?
Mas é da fêmea demais venérea praga!
Levantai-vos, fodei a todo mundo!
Da égua mansa trepai a este bundão nos ares!
No lombo mexa a porra até gozares!

Gravataí, 29 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

auto-retrato.gif

 

E, para coroar, um poema de Gregório de Matos:

 

DÉCIMAS

Estais dada a Bersabu,
Chica, e não tendes razão,
Sofrei-me Maria João,
pois eu vos sofro a Mungu:
vós dais ao rabo, e ao cu,
eu dou ao cu, e ao rabo,
vós com um Negro diabo,
eu com uma Negrinha brava,
pois fique fava por fava,
e quiabo por quiabo.

Vós heis de achar-me escorrido,
não vo-lo posso negar,
eu também o hei de achar
remolhado, e rebatido
assim é igual o partido,
e mesmíssima a razão,
porque quando o vosso cão
dorme c’oa a minha cadela,
que fique ela por ela,
diz um português rifão.

Vós dizeis-me irada e ingrata,
c’oa a mão na barguilha posta”
eu me verei bem disposta”
e eu digo-vos: “Quien se mata?”
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos c’oa a procissão.

Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar,
numa grêta e nutra grêta.

Dizem que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.

Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento,
e o negro jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.

Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura
dou ao demo a puta escura,
que estando a tôdas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.

Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se num coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mínimo agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar , ou faça,
do seu dedo o seu caralho.

Gregório de Matos

Gregório de Matos

 

CANÇÃO DO ANDARILHO


Me perdoe Gonçalves Dias, mas o tédio, hoje, me inspirou a paródia da sua Canção do Exílio, de 1847, a moda do que já havia feito com as “Ilusões da Piça” (paródia à “Ilusões da Vida” de Francisco Otaviano). Com o que também satisfaço a fama de “pornográfico” do blog e homenageio meu amigo xupaxota, que, por mais que goste dos cabarés de Porto Alegre, curte suas saudades dos bordéis baianos (especialmente da “Tia Cleusa”). Deliciem-se os leitores, se puderem – pois, como o original, a paródia me saiu meio sem graça. Mas a culpa é do maldito tédio, que nem a primavera amenizou, pois o inverno, que havia sumido há vários dias, resolveu, após o equinócio de 23 de setembro, provar que ainda existe, aqui no Rio Grande do Sul.

Canção do Andarilho

Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;
As chinas, que aqui puteiam,
Não puteiam como lá.

No bordel tem mais “sereias”,
Nas suas alcovas mais fodas,
Nos seus boquetes mais línguas,
Nas suas línguas mais sabores.

Em punhetear, só, à noite,
Nenhum prazer tenho cá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Em minha terra há amores,
Que não me deixam broxar;
Nem punhetear, só, à noite;
Só prazer encontro eu lá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Não permita Deus que a porra,
Sem que eu “monte” espirre já;
Sem que eu sugue os clitóris
Frementes que há por lá;
Sem qu’inda aviste os puteiros,
Onde tanta puta dá.

Gravataí, 28 de setembro de 2007

Ubirajara Passos