Respeitável manifestação de um bom burguês puto da vida


Desceu à rua completamente embriagado
E pôs-se a girar, a gritar e a cantar,
Jogando as roupas longe, para todo lado.

Nu, completamente nu,
Giravam ele e o caralho mole,
Dando laçaços como rabo de cachorro.

Era uma figura burlesca e inusitada.
Dava gritinhos, corcoveava, foi-se
Num tropel louco, pelo largo afora,

Mas ninguém riu-se, absolutamente, não se viu
Um único olhar reprovador a sua volta.

Porque, desnudo na alma e em suas carnes,
Vestido estava do mais considerado
Na honrada sociedade hipócrita!!!

Bunda de fora, cu a mostra, corcoveando
O enlouquecido cidadão cumpridor de seus deveres
Trajava ainda a superstição brava
Do “respeito” irracional e reverente:

Trazia à mão negro chapéu de feltro,
Velha gravata floreada no pescoço,

E, garantia total de seriedade,
Uns velhos óculos sem vidro sobre as fuças!

Gravataí, 7 de fevereiro de 2013

Ubirajara Passos

Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

Soneto do Penúltimo Dia


Profundo sábado,
Refúgio sagrado,
De todos êxtases,
És de outra esfera.

Viceja em ti
Um gozo tão sereno.
Não há canção que não conduza às lágrimas.
Não  há cachaça que não alargue a alma.

Em tuas noites
Qualquer raio de lua
É uma viagem às esferas do nirvana.

E qualquer banco de praça nos conduz
Aos mais estranhos deleites
Dos altares ou das camas.

Gravataí, 3 de dezembro de 2012

Ubirajara Passos

O Ermitão


Poeminha cretino surgido em meio ao tédio do final de sexta-feira:

O Ermitão

Ele era um chato,
Pra caralho um chato!
Velho eremita bêbado, vivia
Em transe etílico no seu castelo.

Sua companhia eram cães e gatos,
E a vizinhança debatia, ardente,
Se era bruxo, veado ou lobisomem!

Muitos rondaram a velha propriedade,
Bisbilhotando, sem ouvir um ai
E mais entediados voltaram que o asceta.

Ninguém supunha as fantásticas orgias
Que, nas viagens astrais, realizava
Com sílfides e ondinas deslumbrantes!

Gravataí, 30 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Quinto Dia


Sexta da cerveja,
A tua noite reveja
A velha boemia de eras distantes.

Traga o fim do dia
A redenção divina
Da cruz do serviço
Às três horas da tarde.

E, o batismo no copo,
A iluminação
No altar do buteco,
Em comunhão bêbada.

Na noite exaltada
Mergulhemos rumo
Ao paraíso das setenta mil loucuras!

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Terceiro Dia


Terceiro poema da Heptalogia de Novembro (título sugerido pelo Carlão, ontem à tarde):

Soneto do Terceiro Dia 

Quarta-feira linda,
Velha namorada,
Sol e ventania,
Saias levantadas! 

Suave e esperançoso
Topo da semana,
Faz-nos rir a toa,
Num bater de asas! 

As feiras são feiras,
Mercúrio, o mensageiro,
Entrega-nos cartas de pura bonomia. 

E nosso olhar se perde,
Apesar da rotina,
Nas coxas sedosas daquela messalina. 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

 

Soneto do Primeiro Dia


Poeminha auto-explicativo, parido em plena circunstância concreta (ainda que a ressaca de hoje seja apenas o resquício, mais moral que físico, da do dia anterior):

Soneto do  Primeiro Dia 

Segunda-feira:
Ressaca e asneira.
Torto levanta-se
E torto anda-se. 

Vai-se arrastando,
Junto com as horas,
Aos trambolhões,
Toda a leseira!

 Abandona  a cama
Com um peso enorme
O morto-vivo. 

Vai ao trabalho
Tendo-o por feira
E lá descobre que é funerária! 

Gravataí, 26 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

Maldição


Poeminha pessimista que escrevi em Porto Alegre, uma semana antes de viajar para a “fazendola” do alemão Valdir, em “Esquina União”, às margens do Rio Cascavel, que dá nome à localidade fronteiriça (Rincão Cascável), no distrito do Mato Grande, interior do município missioneiro e gaúcho de Giruá:

Maldição

Maldito seja o sadismo que sepulta,
Antes mesmo do próprio nascimento,
Os suspiros de tesão e os gritos de prazer!

Maldita a tirania introjetada
Que interdita aos seres a doçura
Dos afagos e dos fogos mútuos,
A uns secando a vida em soberbia,
A exigir mil predicados para a entrega,
E a outros frustrando e sufocando o impulso
Na rejeição cheia de si dos desejados.

Maldita seja a manipulação hipócrita e infame
Que, atendendo pelo apelido,
De moral, etiqueta ou estética
Separa corpos, dilacera almas,
Infelicita meia humanidade

E cria este poema empolado e seco
Cheio de eruditismos e ademanes
Para tratar de assunto, ao natural,
Irreverente, malandro e folgazão!

Porto Alegre, 3 de fevereiro de 2012

Ubirajara Passos

Tinha uma pedra no meio do caminho


Sempre achei extremamente abstrato o famoso poema de Drumondd. E a interpretação costumeira de sua genialidade sintética e simples diante do fenômeno universal e onipresente dos obstáculos, nos mais diversos locais e circunstâncias possíveis, sempre me pareceu muito óbvia e pouco provável.

Até que há coisa de um mês e meio atrás, tive uma dura e concreta experiência. Uma pedra atravessada no canal do ureter, grande o suficiente para não arrastar-se aparelho urinário abaixo, depois de semanas de sofrimento e investigações médicas infrutíferas acabou por me levar a uma  das aventuras que mais temi na vida, a cuja extinção supunha pudesse me levar: uma cirurgia para sua extração, mediante uso de ultra-som, introduzido justamente pela uretra. O que significa que, além de passar pela sempre temida operação, ainda fui “comido”, isto é sofri a introdução de um corpo estranho dentro de mim,  através do meu próprio pau. Coisa no mínimo bizarra e, depois de passada a anestesia e a sedação, tão sofrida quantos os ardores e dificuldades dos primeiros dias do pos-operatório.

Mas todo este papo meio hipocondríaco, que deve estar fazendo os meus costumeiros leitores bocejarem e gritarem altíssimos “Bira vai à puta que pariu” (não necessariamente simultaneamente nem nesta ordem) é apenas para (tentar) justificar a minha ausência deste blog no período, que espero seja devidamente remediada e absolvida a partir de hoje. Houve muitos outros pedregulhos a causá-la, é bem verdade, mas a partir de agora espero que possamos, eu e os pacientes leitores, fazer uma sopa com a sua poeira.

Ubirajara Passos

O duplo trote


Atabalhoado em meio ao trabalho na repartição pública falida, o sujeito estava bom de dispensar qualquer um que insistisse em lhe interromper “por motivos fúteis”, mas a estranha solicitação do colega, feita pelo MSN corporativo, o sacudiu do transe dos cálculos e o colocou em estado de completa disponibilidade, digna de matrona fofoqueira de arrabalde.

Afinal pra que diabos o cara queria saber se havia orelhões no caminho que fazia até em casa,  no intervalo do meio-dia, para baratear o custo do almoço (que até mesmo o prato feito de buteco escroto andava proibitivo para seu salário de funcionário encalacrado)? E, o que era pior, porque queria que lhe ligasse para o celular justamente quando estivesse passando pelo orelhão?

Imbecil o velho amigo e colega, removido para a região do planalto há alguns anos, depois de ter passado pela campanha(com o que se achava longe de Gravataí há uma década) não era. Logo havia alguma matreirice, alguma sacanagem extremamente sofisticada naquela história. A coisa devia ser, além de inusitada, saborosa e instigante.

Mas a reina rotineira o impediu de atender às repetidas solicitações, apesar das vãs promessas em fazê-lo. E assim, depois de vários dias sendo xaropeado (e se esquivando, disciplicentemente), não teve jeito. Se viu forçado a anotar o número que o camarada teimava em lhe fornecer (um banal telefone residencial em Gravataí) e, aproveitando o primeiro telefone público à vista, em frente ao hospital Dom João Becker, sob o testemunho sonolento de um sol de inverno a “meio pino”, cumpriu as instruções.

Ligou para o telefone indicado e deixou tocar para que a criatura desconhecida do outro lado da linha imaginasse que o seu colega se encontrava na cidade, como o tipo  lhe explicara para justificar a coisa toda  (como ela poderia imaginar que se tratava dele, ainda que possuísse identificador no aparelho, e justamente vendo um número gravataiense qualquer era um mistério que se encontrava relacionado, com certeza, ao horário do telefonema e a outras circunstâncias bastante suspeitas e imagináveis).

Lá pela 4 h da tarde, na hora do outro intervalo, em que costumava empurrar um sanduíche na correria do expediente, quando perguntou, em meio ao relatório do fato, se o alvo da ligação era uma mocréia ou uma gatinha (afinal podia ser a mãe ou até uma tia velha), o amigo reagiu “indignado”:

- Porra, mas tu é foda! Eu te falei pra dar somente um toque. Como é que liga a cobrar, deixa atender e ainda faz a pessoa arcar com o prejuízo de um trote mudo! Ah, ah, ah, ah! Deve estar doida! Tava muito braba?

- Não. Pelo tom da voz creio que te perdoou. Mas vem cá, que negócio é este de marcar encontro com amante em pleno meio-dia? E que senha braba é esta? Ligar de orelhão em hora fixa? A cobrar ainda por cima? A gostosa acredita que tu é tão miserável que não tem nem um celular sem chip e te dá pelo simples prazer ou é alguma velha que te alcança uns cobres?

- Tu é espertinho, hein? Já tá querendo saber demais. Mas é uma gatinha! E ronrona que é uma maravilha! Ainda mais quando senta no colinho e ganha um presentinho. Isto de dar toque de orelhão faz parte do sigilo. É pra evitar encrenca. Não da minha parte, que morando fora da cidade a minha jararaca não tem a menor possibilidade de desconfiar. Mas ela tem um corno brabo, um piazão babaca, nada manso o guampa torta! Não gosta dele (o guri é “precoce”), mas atura por causa da exigência da família. E, não fosse pobre, nem precisava lhe dar nada. Já disse, a ingênua, que,  se um dia enricar, paga o motel pro cavalo véio aqui, que prefere o meu trote experiente que a cavalgada estabanada do potrinho crivado de espinhas.

- Ah, tá! Imagino! – E, enquanto desviava o assunto para velhas anedotas de mais de uma década, o nosso herói sorria, sarcasticamente, com aquele ar de gato mirando passarinho. O amigo cheio de cuidados era apenas mais um de uma lista interminável de ilustres trouxas, todos temerosos do fantasmagórico namorado ciumento e incompetente, que frequentavam a alcova da coisinha linda mediante o oferecimento espontâneo de um considerável mimo. Assim lhe revelou a loirinha  mignon, fogosa e doidinha por uma cerveja, em meio à sacanagem na banheira de hidro-massagem do motel, dando boas gargalhadas, quando ele, malandro velho, lhe contou as precauções misteriosas do amigo.

Não só havia deixado a guria atender, como havia encetado longa e sinuosa conversa mole ao telefone, e o resultado fora uma tarde de imenso e intenso prazer com o objeto da paixão extra-conjugal do colega metido a sedutor.

Ubirajara Passos