Da Hipocrisia Intrínseca da Sociedade Capitalista


 Em toda opressão sempre há um quê fundamental de meia verdade, mentira ou omissão. Mesmo o sujeito dominado pela força é vítima da falsa crença na superioridade física do opressor e, convencido por ela, se submete voluntariamente ao seu domínio. Toda a história da sociedade de classes se reduz à tortura e ao assédio moral organizados*, devidamente disfarçados, como convém e se faz necessário, sob o pretexto do “dever”, da obrigação ética, da “harmonia social” e do “amor ao próximo” e o “bem-estar coletivo”. Conceitos estes que, evidentemente, só existem enquanto ferramenta necessárias à submissão do gado humano oprimido ou como racionalização justificadora da gandaia luxuosa e chique restrita à minoria dominante.

Ninguém, absolutamente, que manipula, divulga e inculca tais categorias de austero e nobre comportamento acredita nelas como princípios válidos para a conduta humana (especialmente para si próprio e para a classe a que serve). E, quando as empurra boca abaixo da multidão submetida e mistificada, espera tão somente que elas sirvam para que a peonada de todo tipo (dos letrados cheios de si aos trabalhadores braçais) se limite a exercer, com toda eficiência, e burra e cega obediência possíveis o papel de máquina sem exigências ou requintes (que são monopólio dos senhores), destina da exclusivamente à produção da vida dionisíaca, apimentada de sadismo, de seus amos.

E os próprios escravos assalariados, em sua grande maioria, quando externam a crença nas boas intenções e exigências morais (ou nos benefícios do “progresso técnico-científico” para uma humanidade abstrata) que justificam oficialmente o seu suor compulsório e não recompensado, exercido sob o pior controle impositivo e infelicitante da opressão calculada e inquestionável, estão no máximo encenando o teatro que julgam necessário para manterem-se vivos e empregados sem o temor da retaliação necessária de patrões, chefes e chefetes a qualquer rebeldia e (supremo e inadmissível “pecado”) à expressão crua de descrença nos cândidos e inocentes mitos “éticos” e espetacularistas que formam o substrato falso e doloroso da produção da vida material, intelectual e emocional comum. Que condicionam o trabalho absolutamente essencial à continuidade dos nossos dias, exercido em íntima relação e “colaboração”, em uma sociedade em que tais atividades não se fazem sob a inspiração da espontaneidade solidária e da empatia natural e mútua dos seres humanos, resultante da proximidade, mas sob o comando da mais humilhante e destruidora hierarquia verticalizada de mando e pilhagem de uns poucos salteadores, organizados e convictos de seu status diferenciado e superior (que nada mais é que o resultado de sua capacidade cínica e cara-dura de auto-imposição e manipulação sobre a imensa horda oprimida).

Mas, no caso da espoliação capitalista, a hipocrisia é absolutamente essencial à existência e à manutenção do sistema, fundado no caráter de informalidade e descompromisso do “dono” com o peão escravizado, que, para permitir maior e mais eficaz “uso”, e, conseqüentemente, maior concentração e usufruto de bens e serviços extraordinários pelo proprietário, é escravo generalizado da classe dominante, sem qualquer relação fixa, vitalícia e obrigatória com determinado membro da burguesia. E se justifica exatamente pelo fato de que as regras morais apresentadas como desejáveis para “todos” e como fundamentos essenciais e básicos da sociedade (especialmente aquelas que dizem respeito ao patrimônio e à economia) foram forjadas, na prática, somente para a maioria trabalhadora, não sendo exigidas da classe dominante, cuja própria existência se sustenta justamente da sua permanente transgressão.

Se o roubo e o homicídio praticados por membros do povo são condenados, e seus praticantes reprimidos, recolhidos ao cárcere e execrados, como prejudiciais à convivência humana em geral, é justamente do apoderamento do resultado do trabalho alheio, da submissão de multidões ao trabalho compulsório e penoso e da morte em vida, ou da eliminação física propriamente dita (nas guerras formais ou informais) que se geram as riquezas e privilégios dos senhores da sociedade capitalista, que forjaram a falsa moral para poderem viver em ócio e fausto montados no lombo de seus escravos.

A antiga dominação senhorial ou feudal podia, nas bases materiais e tecnológicas de vida e comunicação precárias, restritas ao essencial da existência do animal humano, se fazer de forma mais explícita, sob o tacão do simples terror, do amedrontamento e da ameaça física crua e brutal. Ainda que o chicote, a forca, o tronco ou a arena dos leões necessitassem, para efetiva concretização de seu poder constrangedor, como sempre, da crença íntima dos dominados na sua incapacidade de reação e na impossibilidade de virar o jogo pela simples recusa ou rebeldia libertadora.

Mas a moderna roubalheira organizada e burocratizada do capitalismo tecnologicamente sofisticado, dependente de uma engrenagem produtiva intrincada, complexa e ramificada, que cria legiões de níveis de especialidade e aptidão os mais diversos no rebanho de trabalhadores; a sacanagem avançada de um sistema de pecuária humana (que gerou, como efeito colateral, toda uma rede de possibilidades de conforto físico e de comunicação das criaturas humanas entre si muito além do simples feudo ou reinozinho fechado sob a vontade e a ditadura de sua nobreza local ou nacional) necessita de algo que envolva a massa de explorados e utilizados em algo bem mais justificável que o medo e o preconceito rígido imposto por toda uma rede de verticalização de poderes decrescentes de imposição, como ocorria no velho patriarcalismo senhorial, em que a escala dos “direitos” de opressão se estruturava, perfeita e absoluta, desde o rei até o “chefe de família” e o “irmão mais velho”.

Até pela necessidade de consumo dos bens necessários ao lucro mercantilista da classe dominante, o escravo assalariado, acaba por ter um mínimo, ainda que precário, contato com o prazer abastardado que forma o estofo da vida de seus senhores, e, para que não se rompa o élan de sua colaboração, se faz necessário toda uma criação ideológico-cultural falsa e fantasiosa que dê conta da nova necessidade de bem-estar que passa a fazer parte essencial do imaginário do gado humano.

Assim é que toda a sociedade burguesa, da vilinha tibetana perdida no Himalaia às frenéticas e esquizofrênicas esquinas de Nova York ou Tóquio, só consegue manter-se em pé debaixo da hipnose coletiva mais vil e inescapável do prazer substitutivo da nova ética, revelada, ironicamente, de forma clara e nua em etiqueta. E os novos valores “imperativos” e incontestáveis do comportamento universal, a nova “moral” vão do parentesco mais próximo e cru da “moral antiga”, como a supremacia da “qualidade”, dos índices de eficiência em prol do engrandecimento pretensamente generalizado da sociedade toda (seja ela a cidade, a nação, ou toda a humanidade), até os ditames comportamentais tidos por “modernos” e chiques (ou “fashions”) do vestir, do rir, do beber e do fofocar (que é essencial a toda sociedade hierarquizada), invadindo toda as instâncias da vida quotidiana do indivíduo, sob uma constelação de regras impositivas apresentadas como benéficos e desinteressados aconselhamentos em prol de seu “sucesso” sócio-cultural, que, na verdade, garantem, muito longe e diversamente de seu pretenso conteúdo, a continuidade de uma vida de sofrimento, inadequação e eterna infelicidade à legião dos desgraçados que trabalham debaixo do poderio vigarista e psicopata de uns poucos milhares de ladrões bem estruturados e aparelhados em sua capacidade de imposição filha da puta!

 Gravataí, 17* e 28 de setembro de 2010 

Ubirajara Passos

DA DITADURA DA ESTÉTICA E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL


Há absurdos três anos sem escrever sequer um sermão da Igreja de Satanás, finalmente me nasceu este, que comecei a escrever ao pé de um caneco de chopp, no bar Viene, na rua Andrade Neves, centro de Porto Alegre, há uma semana atrás, após ter participado de manifestação no Pleno do Tribunal de Justiça em favor da adoção do turno único de sete horas contínuas para a peonada do judiciário estadual e de panfleteação, em frente ao Palácio da Avenida Borges de Medeiros e ao Foro Central, da candidatura a deputada estadual da minha amiga Simone Nejar, juntamente com a própria. E conclui nesta insone madrugada de domingo para segunda-feira. Leiam, reflitam e divirtam-se!

 

DA DITADURA DA ESTÉTICA

E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL

 

É mais ou menos óbvio que o sem graça, o tosco e o jocoso não inspiram absolutamente o menor tesão nem em um oligofrênico, um louco furioso ou num idiota drogado!

 

Do que não resulta necessariamente que o desejo humano deva restringir-se aos cânones da beleza absoluta e irretocável, tão perfeita, lisa e marmórea, qual estátua clássica ou manequim pós-moderno, que acaba por enjoar, justamente por sua precisão fria e burocrática, acompanhada, na imensa multidão dos casos, pela completa e entediante incapacidade imaginativa e emocional. Belíssima criatura carnal reduzida a um oco e inanimado exemplar padronizado da estética abstrata, como uma boneca de louça produzida em série.

 

A sensibilidade e a experiência concreta do repertório de sensações e modalidades de exercício do prazer permitem que o animal humano possa apreciar, pela mera contemplação da estampa ou pela aferição dos modos e trejeitos, da voz e do olhar aos gestos mais diversos, toda uma escala de beleza, na escolha do ser cuja presença lhe arrebata corpo e alma e o conduz à mais urgente e inadiável necessidade de consumir-se em fogo na fusão dos corpos.


Não há assim, na média dos casos e longe dos condicionamentos culturais das sociedades de classe, mulher, homem, veado ou lésbica tão feios e desengonçados que não sejam capazes de inspirar, circunstancialmente que seja (e ausente qualquer privação mental ou distorção emocional do apreciador), o desejo de fuder até lambuzar-se e extenuar-se completamente. Abstraído qualquer caso de fogo doentio por criaturas aleijadas ou bizarras, a verdade é que mesmo aquela gordinha de rosto lindo, aquela vovozinha sessentona, o sujeito magro, mas cheio de traquejo e charme, e outros tantos exemplares heréticos (segundo o padrão tradicional) da beleza, são capazes de botar muito macho de pau duro ou fêmea molhadíssima com a sua presença. E o exercício concreto da foda, ultrapassada a barreira inicial da mera visualização, pode revelar-se bem mais prazeroso e instigante do que a possível trepada insossa e sem graça com a mais deslumbrante e xaroposa modelo fotográfica ou manequim de desfile de modas.

 

Evidentemente que a beleza completa e requintada de uma gostosona não lhe retira necessariamente o requinte emocional e sexual, o fascínio dos movimentos e a sensualidade e o enlevo de olhares, da voz, dos trejeitos ou da própria prática arrebatadora das diversas modalidades de trepada. A loira linda e meiga não é necessariamente burra, ao inverso do estereótipo propalado, e pode muito bem ser uma loba devoradora e insaciável. Quando se encontra corpo perfeito unido a sensibilidade, humor  gaiato e boa foda tem-se o verdadeiro paraíso na face da Terra, aquele que, segundo o cretino mito cristão-judaico, fez o “primeiro homem”, criado pela pretensa divindade monoteísta, trocar todos os privilégios de viver em permanente e deleitoso ócio por alguns minutos de usufruto com a boazuda Eva.


Mas a pura e atroz verdade é que a distorção estética de nossa sociedadezinha capitalista filha de uma puta tem botado a perder e impedido muito macho ou fêmea (adepto dos mais diversos modos de exercício do prazer, da heterossexualidade ao homossexualismo ou à orgia desenfreada com tudo quanto é tipo de parceiro, até mesmo da zoofilia) de fuder gostoso, em nome de seu império tacanho e absurdo!


Filha dos critérios de escolha de escravos, e insuflada pela ideologia empresarial da qualidade, a exigência implacável e renitente de uma beleza física perfeita e inalcançável tem não só torturado muito dondoca nos mais infelizes regimes alimentares, e nas mais sobressaltantes e ansiosas neuroses, mas frustrado muito sujeito franzino, ou muita gatinha de bunda nem tão arrebitada ou seios mais próximos da pêra que da melancia, em seu intento sexual, frustrando e relegando à infeliz punheta ou siririca meia humanidade, em nome dos preconceitos e pré-requisitos estético-corporais que a safada mídia burguesa despeja sobre nossas mentes todo santo dia!


Se, na economia colonial do século XIX, por exemplo, o sinhozinho adquiria para o serviço escravo em sua propriedade o negrão de dentes perfeitos e brancos, e preferencialmente de canela fina (que os de grossa eram tidos por preguiçosos), a televisão, os jornais e as revistas de nossa ilustre nobreza burguesa se encarregaram, em nossos dias, de plantar na cabeça de 90% da humanidade que só serve para se dividir a cama, a mesa, ambos ou muitos outros tantos ambientes, na prática do deleite físico e emocional aquelas criaturas de bunda pefeitamente lisa, redonda e empinada, de seios absolutamente fartos e cintura de vespa ou (se se tratar do macho da espécie) aqueles indivíduos transformados em músculos dos pés à cabeça, de tronco portentoso como árvore de madeira nobre e ar macho, agressivo (e abestalhado!). Qualquer deslize mínimo de tais critérios e o pobre exemplar analisado está condenado a padecer a mais dura e revoltante solidão e a gozar, no máximo, da companhia erótica da própria mão!


Com isto não só se garante a completa infelicidade da grande maioria, como uma massa de seres neuróticos, raivosos e idiotizados, cujo tesão frustrado se transforma, na medida perfeita, em revolta, recusa e combate a toda e qualquer manifestação alheia de contentamento, prazer e liberdade, a todo movimento espontâneo e leve, filho do simples fato de estar vivo. Mas a legião de filhos do banimento estético-sexual (sejam eles virtuais parceiros rejeitados ou estetas de gosto artificioso eternamente insatisfeito) torna-se, assim, a certeza de uma manada de trabalhadores submissa à hierarquia do escravismo assalariado e empenhada na vigilância mútua e na delação moralista do comportamento de seus companheiros de desgraça – que se tornam a única válvula capaz de extravasar sua raiva histérica, filha da privação do gozo genuíno, espontâneo e benfazejo, auto-imposta pela adesão ao padrão ideal introjetado.

 

O tesão esteja convosco!

 

Porto Alegre, 16; Gravataí, 23 de agosto de 2010


Ubirajara Passos

DA MANSIDÃO E O EXERCÍCIO DO DOMÍNIO


Não há imagem mais representativa da meiguice do que um gato siamês ronronando, enroscado no seu colo. Mas lhe dê um forte beliscão e verá do que é capaz a fera em que se transformará a “doçura”! Entretanto, ao menos que tenha se tornado neurótico, devido ao convívio humano, o bichano jamais será visto mordendo ou arranhando alguém sem que tenha sido agredido, esteja em situação de perigo ou caçando a presa de que necessita para se alimentar (e aí, azar é do rato!).

A mais pura das verdades é que a agressividade é uma disposição de espírito plenamente natural e normal, desenvolvida ao longo da evolução natural, justamente com o intuito de preservar nossa vida e integridade física.

Entretanto, vivemos em uma sociedade onde a menor manifestação de desagrado, discordância, crítica e oposição a qualquer coisa ou a outrem são interpretados como um grave crime que deve ser punido com toda severidade. Especialmente se, no caso da agressividade verbal, esta não estiver revestida da hipocrisia sofisticada da linguagem polida (uma coisa é bradar “seu mentiroso” e outra afirmar, suavemente, “o senhor está faltando com a verdade”) e se manifestar na plenitude saudável da espontaneidade (não há coisa mais imperdoável para a ideologia do “bom comportamento” do que um sonoro e explosivo “vai tomar no cu” ou “vai à puta que pariu” – que, coitada não tem nada a ver com o caso).

Basta mesmo que o tom de voz se eleve algumas oitavas, ao defendermos um ponto de vista lógico, com convicção, diante de um interlocutor, para que caiam sobre nós as maiores reprimendas, dignas do mais odiado assassino apontado pela mídia!

O que normalmente é esperado (e está introjetado na mente da grande maioria dominada) é que sejamos mais dóceis e “obedientes” que o gato siamês! Não é por acaso que a ideologia que forjou a mentalidade profunda do Ocidente (o Cristianismo) recomenda nas palavras de seu “fundador” que se ofereça a outra face, caso levemos um tapão no rosto. E menos ainda é casual que, no primeiro livro da Bíblia (o Genêsis), o “pecado original” cometido pelo primeiro homem (cuja culpa teríamos herdado) seja a “desobediência”.

E o que ninguém se dá por conta é que a repressão da agressividade, e o louvor à mansidão, é justamente um dos pilares necessários à dominação dos que desfrutam o produto do suor de nosso trabalho! A primeira condição para que alguém se deixe escravizar, e para que se mantenha, sem qualquer risco, o sistema que permite aos parasitas dominadores uma vida de requintado e permanente ócio, é a disposição de conformismo dos dominados (pois o simples medo ainda resguarda uma possibilidade de reação).

Somente nos transformando em bem “educadas” ovelhas cumpridoras do “dever”, atormentadas pela culpa de qualquer transgressão às regras impostas, e obcecadas com a própria “compostura”, é que nossos donos podem usufruir seus privilégios à custa do rebanho humano, e exercer sua índole sádica sobre nossos lombos! Sem a colaboração do nosso conformismo e do nosso empenho em vigiar e reprimir os companheiros próximos que ousem não submeter-se (“a desobediência”) seria impossível a existência da exploração e da sociedade de classes!

E esse amestramento só se manteve, milênios a fora, na medida em que assimilamos e reproduzimos, geração após geração, a noção de que a agressividade não só é reprovável, mas doentia (o que nos faz padecer o auto-flagelo mental cada vez em que desejamos ser “rebeldes” e “mal-educados” frente aos senhores, seus chefetes, e a ordem vigente).

Quando, na verdade, nos tornamos animais pela metade, enfermos da auto-violentação, da interdição de um mais naturais e benfazejos instintos, sem cuja manifestação permitimos que nos seja impingida o permanente ataque ao nosso ser (mente e organismo) em prol da sacanagem refinada de uns poucos patrões e altos puxa-sacos de todo quilate (os chefes e chefetes pequeno-burgueses encarregados da função de feitores de escravos, delicadamente designada “gerência”).

Ubirajara Passos

DA CERTEZA METAFÍSICA DOS SENTIMENTOS


Vivemos em mundo dominado pela supremacia e infalibilidade do racionalismo formal, da lógica distintiva (e, portanto, o mais matemática, no sentido euclidiano e hermético, possível), que se amoldam perfeitamente às necessidades da produção e manutenção de máquinas e sistemas mecânicos e automatizados (e, conseqüentemente aos interesses dos dominadores), mas em nada atende à nossa natureza de seres sensíveis, surgidos da evolução de simples moléculas de carbono que um dia resolveram transgredir a velha inércia e aprenderam a se duplicar, a partir de reações com o meio circundante. Aliás, se nos aprofundarmos até o nível das partículas quânticas (os menores constituintes das partículas sub-atômicas, que se ora se comportam como matéria, ora como onda), tudo que encontraremos de certo é uma espécie de vontade expontânea e indeterminada, formando com as demais tudo quanto há no universo.

A mentalidade não-verbalizada, mas subjacente no quotidiano, pensamentos e decisões do menos adestrado na “cultura formal” de nós é de que a lógica consciente e organizada por princípios e operações materiais tipicamente algébricos (verdadeiras equações “qualitativas”) é absoluta e, a única ferramenta mental capaz de produzir conhecimento válido. A própria noção de “verdade” (embora assim não o deva supor necessariamente a razão matemática) aparece como o resultado mecânico de aferições “científicas” universais, inquestionáveis e acima dos raciocínios particulares de cada ser pensante.

As demais formas de consciência e conhecimento, como a intuição, a “ciência” empírica derivada da experiência subjetiva integrada ao longo de gerações (como a medicina fitoterápica tradicional, herdada da prática ancestral, a “meterologia caipira”, os sistemas filosóficos e cosmogônicos orientais) são relegadas à categoria de curiosidades “primitivas”, quando não totalmente invalidadas .

Nos embasbacamos, e celebramos na nossa escravidão mental auto-impingida, com o produto da ciência especializada (hermética para maioria) e matematizada, mas não percebemos o quanto nos tornamos, nas mãos dos donos que dominam não apenas a tecnologia do produzir e desvendar, mas principalmente a de nos induzir a tanto, meras peças da engrenagem automatizada (“mecanizada” seria um termo por demais desatualizado na civilização da informática onipresente) no jogo que produz a vadiagem e o luxo refinado e sádico dos patrões!

Não é casual que a expressão “cálculo” (e seu operador, o “calculista”) seja sinônimo de ação e reação “precavida”, propositalmente pensada para atingir os próprios interesses através da manipulação da crença alheia. O que exclui, como “prejudicial” e contrário à nossa sobrevivência, no mundo da competição, a manifestação autêntica e saudável das nossas emoções mais profundas e genuínas (os sentimentos).

No entanto, muito maior do que nossa capacidade intelectiva (desenvolvida ao longo de centenas de gerações desde o primeiro primata que se soube diferente do resto do mundo e teve consciência da própria existência e condição mortal) – que muitas vezes nos atira ao mar da perplexidade diante da vida concreta – são os sentimentos os mais genuínos faróis dos rumos que devemos seguir em nossas vidas.

Se é que há algo inquestionável sobre a face da Terra (o que é muito duvidoso) são as emoções vindas do âmago inconsciente de nossos cérebros e da memória, não condicionada propositalmente, de nossas células.

Quando nossas intuições e reações puramente emocionais (interações físicas e químicas internas do corpo frente às sensações e à consciência dos fatos externos) gritam de forma candente, ainda que inverbalizada e, muitas vezes, contrárias ao mais livre dos nossos raciocínios, poderemos até nos estrepar seguindo-as, porém, em noventa e nove por cento das vezes elas representam o que há de mais legítimo e benfazejo a nós, animais dotados da capacidade auto-organizativa tornada consciente. Mas sobretudo feitos de pura energia imanente, presente em cada par de genes da dupla hélice de DNA , desenvolvida e sofisticada ao longo de milhões de anos, não de forma ossificada e inalterável, porém, treinada nas mais diversas e infinitas circunstâncias, segundo o caráter de cada uma delas, e, por não estar sujeita à censura das ideologias alheias, capaz de reagir a cada novo fato sem o apego a velhas formas pré-organizadas.

A mente humana é muito maior do que os simples silogismos e estes são apenas a forma sistematizada de percepções e diálogos internos, em que interagem desde os sentidos comuns do corpo até os padrões emocionais e de concepções mais básicos ou decorrentes da atividade psíquica deliberada.

Não somos meras máquinas de raciocínio (caso em que um super-computador seria bem mais eficiente), nem simples organismos de sentir, sem nenhuma capacidade de elaboração e combinação de realidades concretas e fantasias (caso em que um asno no suplantaria). Mais do que aos questionamentos mais profundos e livres, portanto, dê poder à sua imaginação!

Ubirajara Passos

O CHAMADO DO DEMÔNIO


Embora tenha publicado neste blog todos os “sermões na igreja de satanás” até agora escritos, deixei de fora a introdução do livro, que não só lhe dará um panorama como é, a moda do poema do primeiro post publicado, uma profissão de fé do meu pensamento. Aí vai, portanto, em comemoração ao centésimo post, publicado ontem, o texto. Divirtam-se.

Eis que, um belo dia, Aníbal ouviu o chamado do Diabo e este lhe disse: “Vai, meu filhinho, por aí, e prega aos teus irmãozinhos a verdadeira religião – a da liberdade. Pois eis que estão muito assoberbados por regras, obrigações e temores e quanto mais ouvem seus padres e pastores e bons revolucionários institucionalizados (ah, como é bom sonhar com a revolução na fofa cadeira de um gabinete na Câmara dos Deputados!), tanto mais se enchem de culpa (culpa até de viver) e se condenam a si próprios à danação eterna, de tal forma que o meu Inferno está inflacionado de condenados e já não há verba no orçamento para manter acesa a fogueira!

“Devolve-os à pura e santa verdade de que o sublime é a existência livre, malcriada e desobediente, mas cheia de prazer e sem o fardo de viver e trabalhar, de madrugada a madrugada, como bicho (ainda que bicho sofisticado), para gandaia dos patrões e dominadores, esquecendo de si mesmos.

“Que o sexo desvinculado da procriação e das pulsões econômicas é um dos mais refinados e profundos prazeres desta vida.

“Que a própria condição mortal e a diária necessidade de sobrevivência já são sofrimentos e “punições” suficientes para lhes azedar bem a vida e que, portanto, deixem de bater no próprio peito e recitar o mea culpa (antes usem a mão pra bater uma punheta) e reservem aos seus hipócritas gurus, “líderes sábios” e pastores as penas do inferno, que as merecem pelo supremo pecado de injetar boca a baixo da humanidade a ladainha moralista e falsa que exige aos homens mil deveres em troca de pó, enquanto engordam os seus fofos bolsos e satisfazem sua vaidade de dominação!”

E Aníbal, transfigurado nas infernais chamas do Capeta, viu a luz e, por ser mais fácil e atender à sua preguiça, ao invés de sair de porta em porta a pregar e virar mundo, alugou um belo salão na periferia de uma metrópole do extremo sul do Brasil e pôs-se a pregar! Eis aqui a coleção dos seus sermões mais memoráveis.

Ubirajara Passos

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM


Transcrevo abaixo mais um dos “Sermões na Igreja de Satanás” (completando com ele o total de sermões até o momento redigidos):

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM

Não fôssemos animais infelicitados por um cérebro capaz de ir muito além do conhecimento imediato e imergir nos mais refinados recantos do univero da possibilidade e da emoção, e o trabalho poderia justificar-se como uma “razão de viver” e não a tortura inevitável que a necessidade física da sobrevivência, e da existência em um mundo feito de matéria, nos impõe. Muito ao contrário da pregação hipócrita de seus maiores defensores (bons burgueses seríssimos, de veias túrgidas de gordura, que construíram suas vidas no árduo e austero “trabalho” de amealhar fortuna à custa do trabalho alheio, ou recalcados líderes de “esquerda”, contaminados pelo moralismo das sacristias), o embrutecedor e massacrante labor nada possui de virtuoso, dignificante ou realizador! É antes um entrave a seres forjados, pela condição que lhes deu a evolução biológica, para o prazer e a aventura e não para a insípida e tediosa rotina de autômatos de carne e osso.

Seja, porém, pela necessidade de fugir ao suplício da faina diária e recuperar, ainda que abstardado, o paraíso do prazer (só alcançável no mais genuíno e absoluto ócio), seja pelo deleite especial que lhes proporciona o exercício do sadismo, os mais aguerridos e astutos dentre nós arrojaram-nos, historicamente, a obrigação de não apenas mourejar contínua e dolorosamente por nossa própria vida, mas também pela deles, sob cuja prioridade passamos a existir.

Não bastasse, portanto, o séquito natural de incômodos decorrentes da atividade necessária, rotineira e, intelectual e emocionalmente, limitada e aborrecida (como o afã doméstico) que nos inflige a nossa própria condição mortal individual, o advento da dominação (na forma das correntes físicas da escravidão ou institucionais e ideológicas da servidão e do emprego) transformou o que era um purgatório inarredável no mais completo e exasperante inferno! Se o trabalho “livre” guarda ainda alguma possibilidade de prazer, conforme a solicitação intelectual e estética nele envolvida (um artesão de marcenaria ou oleiro poderá apaixonar-se pelas “obras de arte” que produz no seu torno), o exercido sob as patas do patrão elimina qualquer possibilidade de manifestação autêntica da personalidade e acaba por condicionar todo o restante de nossas vidas.

O mais dramático, no entanto, não é o embrutecimento inevitável presente na lida, mas o fato de que, não trabalhando, colocamos em risco a nossa própria sobrevivência física. Deitar-se permanentemente à rede, meditando sob os insondáveis desígnios e mistérios da alma humana e da vida, e apreciar o instigante desfile da luz, da brisa e do luar, pode se constituir num convite certo à morte… ao menos que pertençamos à classe daqueles que obrigam os demais a não um único momento para contemplar o encanto de quadris bamboleantges, absortos na severa “diversão” de se esbodegar pelo patrão.

É este caráter categoricamente indispensável do trabalho que cria a possibilidade (mesmo numa sociedade em que a tecnologia avançadíssima poderia nos aproximar a todos do Éden – reduzindo ao mínimo necessário o tempo e a natureza penosa da ocupação) de submetermo-nos à incessante rotina de humihação, cansaço, imbelecilidade e obediência cega e reverente diante dos mais vaidosos e burros feitores que executam a vontade dos nossos “senhores”.

A divisão do trabalho, o irracionalismo “lógico” da produção em série, ou a “necessidade” de atendimento eficaz e célere das demandas de serviços, nos transformam em zumbis, mais inconscientes do que as próprias máquinas operadas ou as rotinas formais dos procedimentos de escritório. Mas, muito além da inerente despersonalização pofr eles imposta, é a disciplina, fria e regulamentadora, da”ética laboral” a causa mais profunda, e onipresente nos vários ramos da atividade humana considerada “útil”, das tormentas na luta pelo pão que o diabo (ou Deus) amassou de cada dia.

Não há maior infelicidade para um ser pensante e sensível do que, além de ter negado o prazer e o mínimo de condições materiais de existência em nome do luxo e do capricho alheio, ser submetido, durante a maior parte de sua vida desperta, a atuar não segundo as inspirações e motivações da inteligência e da emoção próprias, mas ter de jungir-se à formalidade e à vigilâncias contínuas de regras o mais da vezes irracionais e profundamente impregnadas do maior carrancismo e moralismo autoritário, digno dos mais inverterados mestres-escolas, de palmatória em punho, dos tempos dos nossos avós.

Se a exigência de “bom comportamento” e austera seriedade está presente, ainda que oculta sob a tênue capa da tolerância “informal” da modernidade, em cada instância de nossas vidas (do trânsito ao leito, passando pela escola e até pelo bordel) é no trabalho que ela, pela necessidade de submissão total que a dominação pressupõe, atinge o seu ápice

O desconforto, o sofrimento físico e psicológico do homem transmutado em coisa, aferrado a ações automáticas, repetitivas (e, portanto, cansativas), fasditiosas e obnubilantes não são apenas uma conseqüência lógica das modernas formas e “imperativos” da produção, num mundo de complexidade tecnológica crescente, mas um componente ideológico necessário ao exercício do domínio. Não é possível obrigar um indivíduo a todo este sacrifício e degradação voluntários, senão imbuindo-lhe até a menor molécula do senso absurdo de auto-imolação, do dever de “ser útil” ou, pelo menos, do temor (reforçado pelo comportamento delatório e oportunista dos demais membros do rebanho) da autoridade e suas imposições de estrita e sisuda dedicação ao serviço (um cigarro ou uma gargalhada são um tempo “subtraído” imoralmente ao amo que alugou-lhe os braços ou a mente, assim como a menor satisfação pode trazer à tona o desejo de jogo, prazer e liberdade sepultados).

A exploração e domínio carecem da sujeição do animal humano a cangas, encilhas e bretes tão violentadores, que esta se faz, forçosamente, presente não apenas no espaço exclusivo do lavor, sob p0ena de se esfacelar. Assim, a alimentação, o sexo, o lazer (a vadiagem institucionalizada), os mínimos momentos, peripécias e detalhes que formam o estofo dos nosso dias passam, imperceptivelmente, a ter “horários”, conteúdo, e mesmo formas de exercício, regrados e definidos não segundo as necessidades biológicas naturais ou as inspirações emocionais e decisões do nosso arbítrio individual, mas conforme as contingências do lucro que propicia a vida faustosa e sem sobressaltos de nossos amos.

Outro não é o cenário no qual o que sobra das horas dedicadas aos afazeres mal se presta às rotineiras atividades necessárias à manutenção da existência do rebanho de trabalhadores. Se examinarmos atentamente o tempo “livre” de que dispomos, constataremos que (quando o parco salário nos permite e a fadiga da jornada não nos converte em abúlicos adoradores dos deuses eletrônicos – rádio e televisão) nele nos resta uma atabalhoada luta contra o tempo limitado, destinado às compras, ao estudo, ao cumprimento protocolar e frio dos papéis familiares e sociais e, quando muito, ao divertimento insulso dos fins-de-semana periódicos. Uma existência mecanizada, em que se destina um tempo e um local obrigatórios para cada atividade, ainda que em flagrante contradição com as condições emocionais ou físicas do momento. Em que os sentimentos e interesses mais caros e profundos não podem, nem devem, segundo a ética vigente, manifestar-se a qualquer instante, mas subordinam-se e são sacrificados aos sagrados reclamos do trabalho. A própria folga da trabalhadora grávida, sob o título de licença-maternidade, caracteriza-se como uma exceção que a produção econômica, assumindo a primazia, concede à natureza para continuar a perpetuar a vida!

Não é, entretanto, por não haver fuga possível (sem prejuízo da vida ou de mínimo de dignidade humana) ao trabalho, que devemos nos sujeitar ao controle inelutável e doloroso da atividade assalariada, nem à interdição constante, em seu nome, dos deleites proporcionáveis por nossos corpos, emoções e intelecto. Não é, em suma, por ser um mal necessário, que devemos organizar, e permitir que organizem, nossas vidas no interesse do trabalho, ao invés de trabalhar, o mínimo necessário e com a máxima liberdade e satisifação própria de seres dotados de razão e sensibilidade, para vivermos de forma válida e agradável.

Ubirajara Passos

DAS VANTAGENS DA IGNORÂNCIA


Mais um porre, mais um texto antigo que, talvez, seja tão atual quanto o anterior. Peço a devida paciência aos leitores. Por enquanto me aturem com mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DAS VANTAGENS DA IGNORÂNCIA

Num mundo em que a maioria dos indivíduos vive imersa na mórbida necessidade de se esforçar o máximo possível para ser um bom membro do rebanho e agradar seu dono, a consciência do que realmente fazemos de nossas vidas, a capacidade de questionamento e o amor da liberdade são nefastos à tranqüilidade e bem-estar emocional da desventurada criatura que for por eles tocada.

O imbecil vítima de tal desgraça padecerá, enquanto a menor fibra de seu ser agitar-se viva, o drama da solidão e da incompreensão de seus companheiros ante a sua mania de “complicar a vida” e querer subverter a “ordem natural das coisas” em nome de verdades que – admita-se – podem atingir o cerne dos incômodos de suas vidas bovinas, “mas não trazem vantagem nenhuma a ninguém”!

O gado humano, devidamente amestrado, desde a mais tenra idade, ao servilismo, poderá revoltar-se contra a miséria material em que vive, mas tão arraigado está em sua alma o temor do caos e o culto da disciplina , que sua pobreza lhe parecerá, no máximo, o resultado de sua condição natural ou, quando muito, da sua falência (ou incapacidade) pessoal. Para o comum dos indivíduos, se o proprietário da fábrica, do campo, do escritório detém o poder – porque, afinal, é proprietário – de dispor as coisas segundo o interesse “próprio” (mesmo que disso resulte a frustração até das mais básicas necessidades biológicas de seus empregados – ou antes “utilizados” – ferramentas sem nome e sem vontade) é porque seus méritos – que ninguém sabe quais são ou donde vieram – o permitem. De tal forma que, assim supõe, não se deve rebelar contra o domínio destes “virtuosos senhores” (ainda que a sua virtude seja a vigarice), pois, como tais, são eles os fiadores da “ordem”: sem a imponente autoridade destes grandes pais o mundo se obumbraria na desorganização mortal e fatídica.

Quem quer lhes atire à face a atroz exploração de que são vítimas e, o que é pior, o fato de serem os maiores responsáveis por ela, amargará a pior repressão histérica por ferir seus brios de otários orgulhosos e tentar mudar um mundo que, segundo pensam, está estruturado desde sempre para evitar que a “libertinagem assassina” coloque em risco a própria vida de cada um. Os donos podem ficar com o grosso da riqueza produzida, podem ser petulantes e sádicos, mas a sua suserania é, na visão do ignorante, necessária: sem a disciplina, a moral, e a representação viva que delas se faz no padre (ou pai…), no pastor, no político, no juiz… o mundo submergiria num mar de sangue e de luxúria! “E se cada um pensar por si, der vazão às suas inclinações sem freios, fatalmente ruirá na violência selvagem toda a humanidade”.

Enfim, o quadro de dominação e coisificação em que vivemos há milênios pode ser cruel, pode ser o responsável pelos nossos mais íntimos desgostos, mas parecerá, ainda assim, para o ignorante, o melhor dos mundos possíveis, uma vez que tem inculcada em si a imagem de que a liberdade, pela falta de direção absoluta que supõe, é obrigatoriamente a condição da qual derivaria a fantasiosa destruição de tudo. Para ele, o poder, com todo seu cortejo irracional de imposições infelicitantes, é, ainda assim, a garantia de um bem-estar e uma segurança precários, mas reconfortantes.

Tamanho é o grau de tortura, de envilecimento a que é submetido, desde os primeiros instantes fora do útero materno, pelo mundo da imposição (aceita sem dúvidas: pode ficar perplexo eventualmente, mas, se olhar para seus parceiros de desgraça, tudo o que verá será, como ele, ovelhas amedrontadas) que, doentiamente, tudo o que lhe propiciar um mínimo de imutabilidade lhe parecerá bom. Diante do que se lhe afigura como as excêntricas exigências dos amos de seus avós, um explorador que lhe permita uma vida miserável, mas estável, será um benfeitor.

Assim, o confronto com a incerteza, decorrente da descoberta de que vive em anestesia, o tornará infeliz! O indivíduo submetido às piores sevícias físicas se julgará feliz se estiver devidamente dopado. Mas se lhe retire a morfina benfazeja e se retorcerá de dor. Tal é a natureza da grandissíssima maioria de nós: eliminada a anestesia moral, poderia saltar, fulminante, sobre o seu algoz, mas, à menor dor decorrente de sua privação, chora, berra e suplica por mais morfina!

Ubirajara Passos

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO


Nestes dias de desilução pós-eleição, em que nos resta, pelo caminho da política formal e institucional, escolher entre os canastrões da direita tradicional (os “Geraldos” da vida) e os fascistas vermelhos enrustidos (Inácio e seus corruptos amestrados), cai bem uma reflexão mais geral sobre as formas políticas de transformação do mundo (ainda que tenhamos de estar atentos para evitar o prejuízo maior de dar mais um mandato ao fascismo).

Assim, para desenfado dos leitores, enquanto concerto o meu “aparelho de pensar” (que está se recuperando de uma farra regada à cerveja praticada ontem), lá vai um dos primeiros “SERMÕES NA IGREJA DE SATANÁS”, parido originalmente sem o plano de ser um sermão (4 anos antes d’O Falatório Histérico em Política) e que adaptei após ter escrito os três primeiros

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

O Socialismo, o Projeto Revolucionário de Emancipação da Humanidade, deve levar, muito mais do que ao estabelecimento de uma realidade material igualitária, justa e digna da condição humana, à possibilidade de que a vida de cada homem seja uma aventura plena de encanto, de jogo, prazer e liberdade. Muito além, portanto, do utilitarismo economicista e do frio racionalismo do finalismo universal.

Assim, o livre pensamento, o questionamento, a postura do homem em encarar-se como válido em si mesmo são uma pré-condição do projeto revolucionário. O mental e o material se condicionam mutuamente e a emancipação econômica dos trabalhadores, da maioria da sociedade, será uma mera conseqüência de sua autoconscientização, da rebeldia e desafio às regras que lhes são externamente impostas.

Não será operando nos moldes tradicionais, na disciplina absoluta e obrigatória, na autoviolentação diária dos indivíduos que se alcançará uma realidade de plena liberdade, de consciência e realização do homem. O “dever” é uma invenção autoritária e destroçante da intuição e espontaneidade humanas, plasmada por aqueles que julgam-se “no direito” de impor sua vontade sem limites aos demais, em benefício dos seus exclusivos apetites materiais e totalitários.

O mal da praga que são as sociedades de classe, das sociedades exploratórias de todo tipo (capitalistas, feudais ou escravistas), ao contrário do apregoado por um certo “socialismo” vulgar, superficial e hipócrita defendido por pretensos setores políticos de esquerda, não está no “individualismo”, mas num esquema concreto de relações que só permite a plena realização individual – mesmo assim limitada por regras externas preconceituosas e heterônomas – a alguns indivíduos, barrando este caminho aos demais.

O altruísmo cristão extremado, por sua vez, tanto pode justificar uma sociedade solidária, justa e igualitária, quanto servir de suporte à entrega da maioria dos indivíduos – na condição de sacrificados voluntários – aos apetites de poucos, como “servos” convictos.

Não estamos no mundo “para servir uns aos outros” merda nenhuma!

Primeiro porque não há regra, forjada em uma instância abstrata qualquer acima dos homens, que possa determinar-nos a finalidade de nossas vidas. Cabe a cada um de nós construir, na interação com os demais, nossa realidade.

Segundo porque o homem, essa consciência concreta, só pode se realizar em si mesmo. Não sucedendo daí que a realização, a “felicidade” (para usar um termo universalmente compreendido) de uns possa, legitimamente, se fazer sobre o sacrifício da dos demais – o que é válido não somente no campo econômico, mas em todas as áreas da vida e das relações entre os homens.

A condição para o exercício desta violência, para a exploração dos trabalhadores, não está, porém, determinantemente na vontade do explorador, mas no consentimento semiconsciente do explorado.

O que constitui realmente a “propriedade” (uma abstração jurídica, uma regra de coexistência socialmente aceita) em elemento determinante do poder, da “dominação” de uma classe sobre a outra, senão a transformação em realidade concreta, mediante a submissão inquestionada, desta ficção de que alguém possa ser “dono” do trabalho alheio e dos bens materiais por outrem produzidos e, como tal, determinar as condições deste trabalho e da distribuição e gozo de seus frutos porque “tem direito”?

Nem mesmo a força física da minoria privilegiada tem condições de se impor efetivamente sobre a maioria explorada (pois esta, como tal, suplantaria qualquer tentativa de constrangimento) sem o seu consentimento.

A condição para a libertação da humanidade está, portanto, na conscientização (entendida como processo de autoconstrução de visão de mundo, de realidade mental individual), no questionamento, no exercício radical da liberdade pela maioria dos indivíduos.

Liberdade, consciência, questionamento, o auto-dispor de cada um sobre a “sua” vida, eis o “o princípio, o fim e o meio” da emancipação filosófica e política da humanidade. O prazer, o jogo, a realização lúdica da riqueza interior e multifacetária do Homem será sua conseqüência.

Quem disse que só o drama e o sofrimento dão graça, sal e cor à existência?

Ubirajara Passos

OBRIGAÇÃO DE SER FELIZ


Quero agradecer aos comentários postados ontem pelo meu irmão de fé e cachaça, o Nego Dantas do Sindjus-RS, da periferia porto-alegrense e dos incríveis butecos do Mercado Público (quem não conhece o mercado, gaúcho ou não, não sabe o que está perdendo). Muito me emocionaram e me convenceram que o companheiro Jorge Dantas tem bom potencial pra escrever. Basta seguir a sua receita para a vida: dizer as coisas com emoção e tesão, da forma como vêm das entranhas, grávidas de vida e disposição de luta. Escrevo apenas o que a vida me ensinou. Antes eu precisava de mil sistemas e teorias para justificar a existência humana. Hoje sei que a maior ventura é apenas viver, buscar e gozar de prazer e liberdade e, sobretudo, não permitir que nos usem e escravizem impunemente. Em homenagem a tão ilustre admirador segue mais um “sermão na Igreja de Satanás:

Da Obrigação de ser Feliz

Mais infausta ainda que a “infelicidade” objetiva é a felicidade obrigatória e pré-concebida do breviário revolucionário organizado (os partidos e grupos políticos “socialistas” institucionalizados – com autorização, ou alvará de funcionamento – da democracia burguesa ocidental ou do fascismo de esquerda remanescente).

Enquanto o infeliz (no sentido banal e aceito do termo) pode viver seu tormento, e identificar-se como tal, exclusivamente pela noção subjetiva de sua situação (derivada, muitas vezes, dos ideais de felicidade introjetados dos catecismos religiosos, doutrinário-filosóficos, e das prescrições implícitas da moda ou mídia burguesas), o indivíduo submetido aos reclamos iluminados e intelectualóides dos modernos profetas redentores (os ideólogos do bem-estar e conforto produzido em série) estará tanto mais afastado do prazer genuíno e benfazejo, quanto mais se esforçar em atender-lhes as exigências e padrões impostos.

Além de estar fatalmente condenado à desgraça, não terá qualquer oportunidade de alcançar o “paraíso” justamente por tê-lo congelado e normatizado dentro de si. Sua tão almejada ventura, na medida em que corresponder aos planos alheios, abstrusos e “objetivos” dos messias da “salvação” proletária, estará reduzida à frieza dos silogismos e “padrões” pré-determinados, que podem ter toda intimidade com critérios matemáticos e abstratos de excelência e insuficiência, à semelhança dos parâmetros de classificação de um cão ou gato de exposição, mas nada em comum possuem com a realidade e necessidades efetivas de seres feitos de carne e osso, com emoções e percepções próprias, cuja validade se justifique na sua íntima experiência e não em planos etéreos e cartilhas “deduzidas lógica e objetivamente”.

O ideal religioso, explicitamente autoritário e opressor, da salvação da alma justificava a submissão, e o conseqüente sofrimento, da maioria coisificada sob o argumento implacável do julgamento divino – que premiaria ou condenaria os indivíduos em uma pretensa vida futura, conforme estes se resignassem ou não à dominação e à “morte em vida” . Já o imaginário laico da “felicidade coletiva” (mesmo nos raros casos em que não está a serviço do domínio e da exploração velada, típica do fascismo “vermelho”) encobre o desejo de domínio absoluto sobre os mínimos detalhes da vida alheia sob o argumento do altruísmo de seus gurus.

Os “apóstolos” agnósticos da revolução autoritária (que hoje são, em sua maioria, inofensivos e devotados “socialistas democráticos” – e não “comunistas totalitários”) não pretendem manter as multidões oprimidas acorrentadas à uma existência inexoravelmente degradante, sob a desculpa da determinação extra-humana de deuses e princípios. Ao contrário, proclamam, aos brados histéricos e altissonantes, sua total devoção à “felicidade” humana! E, para que ela seja plena e infalivelmente assegurada, planejam, na solidão e aridez de seus gabinetes (modernos ermitões ateus), cada atitude e condição íntima do quotidiano de seus “beneficiários” para que estes não “se percam do reto caminho” rumo à realização programada.

Querem ardentemente um paraíso na Terra, e não num falso Além, mas um “paraíso” não “caótico” e “anárquico” (sujeito ao ao arbítrio das suscetibilidades individuais) que ponha em risco a perfeição de seu programa; um “paraíso” racional e “responsavelmente” determinado por suas brilhantes mentes, longe do qual não há qualquer possibilidade de “realização do ser humano”. Assim, como caudatários racionalistas do velho totalitarismo da sociedade de classes (“purificado” de irracionais e “preconceituosos” ideários monárquicos, religiosos e metafísicos) os nossos novos salvadores da humanidade “mensurarão” a “felicidade” de povos e grupos segundo índices “objetivos” de “desenvolvimento humano” – tais como o percentual de alfabetização, mortalidade infantil ou a “renda per capta” de determinada sociedade – e providenciarão para que seus “governados” se encaixem nas melhores estatísticas fixadas, pouco lhes importando o íntimo grau de satisfação e liberdade dos milhares e milhões de pessoas a eles submetidos.

Para nossos beneméritos novos “pais da humanidade” o acesso às mínimas condições materiais (como energia elétrica e água encanada) e culturais (o domínio do be-a-bá e da matemática), ou a “regalia” de possuir na residência um moderno aparelho de DVD, justificam a servidão humana, seja através da escravidão assalariada capitalista, ou – na melhor e mais remota das hipóteses – de um socialismo “coletivista” onde cada um, mesmo garantido o maior e mais justo bem-estar a todos, esteja submetido a interdições e prescrições de pensamento e comportamento. Esteja jungido a modos de sentir, raciocinar, gozar e agir pré-determinados e heterônomos – sem qualquer direito ao questionamento e originalidade na construção de sua biografia – sob a pretensa “necessidade” inapelável de regramento da vida (cerceamento e “fossilização” de todo movimento mental e emocional expontâneo) para a mais perfeita “harmonia” e “felicidade dos homens”.

Estas normas se apresentam como a encarnação mais perfeita e irrefutável da lógica, totalmente alheias a crenças e preconceitos irracionais. Mas sua pretensa raiz científica e especializada é justamente a face visível de seu estranhamento do raciocínio livre e isento de arbitrariedades derivadas da vontade de domínio.

Tal utopia de felicidade outorgada pretende validar o jugo de nossas vidas ao conhecimento de Psicologias, Sociologias, Economias, Éticas etc. gestadas segundo o ponto de vista totalitário e “não-envolvido” de seus “iniciados”, mas sem qualquer intimidade e participação efetiva de nossas emoções, percepções e pensamentos individuais. Sua transformação em realidade nos reserva a alegre e espetacular condição de autômatos infalivelmente programados.

Ubirajara Passos

DA REBELDIA SAGRADA


Mil perdões aos leitores pela preguiça dos últimos dois dias. Logo em breve estarei publicando uma série de crônicas, contos e comentários sobre o Luís Inácio (Lulinha, “o eruditchio”) e mais algumas “safadezas”. Por enquanto, saboreiem mais um ”SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”:

DA REBELDIA SAGRADA

A liberdade, a autonomia de pensamento e ação, a consciência (tanto a derivada da reflexão racional, quanto a verbalização dos sentimentos e emoções mais autênticos e profundos) não nos garantem o prazer, a ausência da dor e a felicidade. Mas sem elas não há qualquer possibilidade!

Quando os acontecimentos e questões que nos dizem respeito são decididos por qualquer outro que não nós mesmos, ou porque qualquer instituição na qual não temos a menor ingerência prática (ou agimos sob tais influências), a única certeza que podemos ter é de que viveremos segundo as inspirações, humores, apetites e interesses alheios e que, salvo um imponderável lance de sorte, 99,99% das vezes estes não coincidirão com os nossos e não levarão a outro caminho que o da infelicidade e do sofrimento.

Nem mesmo o mais desinteressado amor de mãe poderá nos conduzir ao conforto ou ao deleite de uma vida válida e instigante se impuser os seus critérios e sonhos ao nosso roteiro pessoal, pelo simples fato de que eles são o produto de suas vivências e não possuem qualquer intimidade com os nossos processos subjetivos de sentir e pensar, por mais universais que possam ser!

Infelizmente, embora a experiência incontestável demonstre uma unidade nos modos de raciocínio e conhecimento imediato, comum a todos os seres humanos, pela mera contingência de sermos criaturas individuais (corpos limitados, separados uns dos outros, nos quais toda experiência mental se dá “dentro” do cérebro e dos nervos de cada um), as mais indubitáveis “verdades universais” (mesmo aquelas sem as quais nem mesmo poderíamos nos comunicar) só existem como realidade à medida em que se tornam “verdades para nós”, pela construção interna que as impregne de algum sentido além da aceitação frouxa e acomodada da tradição ou do “costume” inquestionado.

Isto é suficiente para renunciarmos a toda passividade de comportamento, por mais prazeroso que seja o deixar-se conduzir, imóvel e cômodo, no fluxo inerte dos dias e das noites, do vento e da chuva, das fofocas de esquina ou dos escândalos e maravilhas do imaginário jornalístico.

E, desde o momento em que resolvemos seguir nossos insights e asneiras auto-inferidas, só podemos realmente ser livres e tentar escapar à fatalidade de nossa condição animal (ainda que só possamos ultrapassar as barreiras da existência material e da morte no íntimo de nossas mentes) se nos colocarmos numa posição de permanente luta e vigilância, em um mundo que está organizado para que sejamos membros do rebanho, sem direito à mais mesquinha individualidade.

Numa sociedade em que a maioria é submetida (com a própria colaboração de seu conformismo) a existir segundo os padrões definidos pelos dominadores (no proveito destes), o exercício do livre arbítrio só é possível como rebelião, pois, a todo momento, estará chocando-se com as regras de comportamento exigidas pela dominação.

Onde há senhores que precisam de autômatos humanos para executar por eles todo o trabalho intolerável e penoso, quem quer se arrogue o direito à própria singularidade jamais o poderá fazer na ingênua crença de ter como justificar sua vida por si, e para si mesmo (uma vez que, como toda gente, é um ser que pensa e sente). Tal disposição é contrária à ordem que nos é imposta e a realização concreta da liberdade só poderá dar-se na forma da rebeldia, já que, permanentemente, os mais diversos condicionamentos e exigências, as mais sutis punições e chantagens, as mais explícitas seduções e sabotagens cairão sobre o indivíduo livre para reconduzi-lo à procissão do fatalismo ou até mesmo ao próprio desaparecimento da Terra, se necessário à manutenção desta ordem.

A cada instante da existência, ou nos opomos às ondas construídas pela sociedade hierarquizada e pela opressão de todo tipo (principalmente a das idéias, crenças e condicionamentos jogados sobre nós em prol das mórbidas necessidades de prazer de nosso amos), ou nadamos ferozmente contra a correnteza do poder e da inércia dos subjugados, ou contestamos tudo o que não seja genuíno e são (que não nasça do âmago de nossos corpos e mentes e a eles não se manifeste como satisfação e gozo), ou nos tornamos rebeldes, transgressores de toda ética vinda dos poderosos e seus adoradores, ou só nos restará o doloroso, e ainda assim inconformável, papel de bufões da inteligência e da liberdade! Mais valeria, não nos rebelando, fôssemos pedras e não houvesse a natureza viva evoluído até nos dotar de consciência.

Ubirajara Passos