A BUCETA DE ÓCULOS


Não, meus camaradas. Não andei fumando maconha estragada, nem tomando chá de bosta de vaca. Simplesmente, agora que o estoque de textos prontos vai se esvaindo, e vou publicando os poemas e dissertações menos originais, a necessidade de manter um comentário ou crônica diários acaba por gerar títulos como o deste post, que mistura entes totalmente estranhos entre si como xoxota e lentes. Estranheza, é bem verdade, aparente, pois, como será “cabalmente demonstrado ao longo desta crônica”, ambas as coisas possuem bem maior identidade do que o fato de pertencerem ao quotidiano das minhas preocupações e experiências relevantes, atualmente.

     Desde os dezoito anos, no final do 2.º grau (curso Técnico em Contabilidade), que sofro de astigmatismo (que auto-diagnostiquei ao perceber os primeiros sinais de raios luminosos borrando o perfil dos objetos), sem que jamais tivesse procurado um oftalmologista. Quando ingressei no serviço público, aos vinte e dois anos, por pouco não fui reprovado no exame “biométrico” .

     Muito embora, com o tempo, fosse se manifestando uma certa dificuldade de enxergar ao longe e a diminuição da acuidade visual, como conseguia ler, andar por aí e fazer tudo sem maior dificuldade, exceto ler placas de rua ou os letreiros das linhas de ônibus, me acostumei com o ceratocone e me julgava muito superior aos míopes e hipermétropes, que eu não precisava de óculos e aquele franzir de olhos (de que resultaram boas rugas na cara) resolvia, sem mexer no bolso, os mínimos problemas óticos.

     Mas a intenção de cursar a auto-escola (em cujo exame oftálmico prévio eu faltamente levaria bomba) me conduziu aos braços da oculista (pois já que tinha de consultar a médico, programa a que tenho verdadeira ojeriza, que fosse uma mulher: aturar barbado de guarda-pó branco a receitar-me a “cura” seria o supremo masoquismo). E, comprados e colocados os óculos, tive algumas surpresas nada óbvias para a minha sapiência de “médico caipira”. Primeiro descobri que andara quase às cegas. Um mundo novo, de cores e imagens precisas e brilhantes, saltou-me à frente e, com um mês de uso dos olhos postiços, ainda imagino, às vezes, não estar vendo, através deles, imagens reais, mas algo virtual, como a tela da TV, tamanha é a diferença do que estava acostumado a enxergar nos últimos vinte e três anos.

     Constatei também, com um prazer e um tesão inéditos, que as gostosinhas que andam rebolando pela rua são muito mais apetitosas do que via! Mas, como todo remendo, por mais sofisticado que seja, os óculos têm lá os seus limites e (invejosos e impertinentes) possuem a mania de nos transmiti-los. Assim é que me dei por conta, puto da vida, que a minha visão “periférica” (não o rabo do olho, mas o plano que fica fora do foco imediato das lentes) se tornou completamente prejudicada.

     Tarado contumaz e curioso dissimulado, costumava, para evitar a censura e a encrenca do olhar alheio, espiar mulher boa e excentricidades com um simples golpe de vista. Entretanto, com os óculos, se o fizesse, me arriscava a ver a imagem distorcida (especialmente se grande e próxima), truncada no limite da borda das lentes. A solução possível seria “usar a cabeça” e deslocar o rosto. Com o que qualquer sujeito esquisito que andasse na minha lateral veria que eu o estava encarando. Adeus expediente de seguir reto, com o nariz hipocritamente voltado para a frente e o olhar desviado para os lados, a espreitar os outros!

     Porém, como não resisto àquela olhadela de soslaio, já encarei, pescoço torcido para o lado, muita coisinha linda a me fazer caretas e muito marmanjo ridículo invocado a me rosnar de raiva: que que é tio, tá pensando que eu tô cagado ou tâ a fim dumas bolachas?

     Foi aí que dei-me conta do real tamanho da hipocrisia humana. Parafraseando a velha frasesinha, “quem tá na rua é pra se olhar”! Mas todo mundo anda como zumbi, fazendo de conta que não há mais ninguém no mundo e (embora espie com o prazer mais fofoqueiro as “excentricidades” alheias) age como se estivesse num aquário de um único peixe: não admite a menor interferência manifesta do olhar de outrem.

      Especialmente, no caso das gatinhas gostosas, a coisa é um disparate. A menor espiadela tímida em direção às suas roliças e desnudas coxas e eis projetada na tela de suas ‘”devassas” mentes a nossa “tara condenável”. Pois outro dia, pesquisando na internet uma das mais belas palavras da língua portuguesa, dei, num blog cujo autor já não recordo, com um poema à buceta que expõe, em versos os mais comuns, o rídiculo da nossa sociedade, construída sobre a recusa não só do maior dos prazeres ( o sexo), mas na apologia do sofrimento e na rejeição, irracional, ao corpo. Dizia lá o sujeito que mesmo as mais recatadas e puras senhoras, as mais pudicas e hipócritas “moçoilas”, das que tem ataques de estupor ou fúria à mera menção da palavra “buceta”, mesmo elas possuem uma xoxota!

     E aqui fica a constatação lógica mais ingênua, e correta, possível. Que inferno de cultura é esta que não entende por que seus membros (na grande totalidade) são infelizes , e expressa, nos seus tabus linguísticos, uma fúria digna de hecatombe nuclear contra uma simples parte do corpo humano, tão ou mais “digna” (e bem mais interessante) como outras tantas, como orelhas, mãos, pés e cotovelos, mas cuja simples menção parece invocar os maiores desastres do universo? Só mesmo o sadismo e a perfídia capazes de nos reduzir, a nós povão trabalhador esfalfado e miserável, a mero objetos de uso de uns poucos burgueses (e antigamente senhores feudais ou de escravos, o que dá no mesmo) é capaz de rejeitar e criar encrenca com algo que, além da suprema preciosidade que a capacidade de dar e sentir prazer lhe reveste, é responsável pela origem e continuidade da própria espécie! Pois, como dizia o meu caro poeta, “somos todos filhos da buceta!”.

Post scriptum: se o leitor ainda não entendeu o que tem a ver a buceta com os óculos, uma recomendação: verifique como anda sua visão “mental”!

Ubirajara Passos

Um comentário em “A BUCETA DE ÓCULOS

  1. Em 16.02.07, às 10:49:12, gerson disse :
    Ao lêr o título de sua crônica, fiquei preocupado com o amigo. pois logo imaginei que o mesmo foi espiar mais de perto o buraco escuro sem fundo e com isto teria perdido seus presiosos corretivos oculares, pois espaço para isto há. Tenho notado o uso corriqueiro das expressões em latim, talvés devido a influência de seu meio de labuta. Cá, em casa o único que fala esta antiga sofisticada limguagem é meu amigo Zé, que aliás não parou de latir e uivar a noite toda.
    Mas voltando ao assunto que demoveu-me a escrever, foi quanto a sua condição de há muito precisar de lentes para apreciar melhor a vida, pois quem teve o tem o privilégio de te conhecer sabe disso.Felicidade com seu novo ponto de vista, só tenha cuidado de quando meter o nariz em determinados lugares não venha a perder os óculos

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